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Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

24
Jun15

A minha é maior que a tua


Estranho fado o dos portugueses que passam a vida em disputas.

Não somos a Grécia! Temos o Ronaldo! Gritamos a quem nos lembra que somos pequenos que fomos outrora grandes e provamos o nosso valor no livro dos recordes, temos, entre outros: 'os maiores chifres de bode' de 09/04/2002, 'o maior número de t-shirts vestidas' do Eduardo Freitas, mesmo não o conhecendo considero moço valente, foram 268 t-shirts ou, se preferirem, duas lojas dos chineses. E, temos ainda 'o maior caixote do lixo' este nem imagino porque será mas, é útil ter as nossas coisas reconhecidas e certificadas. Assim ninguém se gaba, por exemplo, de ter uns chifres de bode maiores que os nossos.

 

Este espírito de competição faz com que os portugueses queiram ser bons em tudo. Até na doença!

Há em cada português um ser desgraçado, cuja desgraça será jamais alcançada, por outro.

- ó menina, sabe é que eu tenho muitas arrelias, muitos problemas e a saúde não ajuda...

- Lamento!

- Oh! ó menina, a menina é nova nem sabe o que isso é!

 

Claro! Nós, ó meninas, somos autómatos eternamente jovens. Não temos família, casa, contas, arrelias, doenças... Blocos operatórios, urgências ou batas brancas são coisas que uma verdadeira ó menina nunca viu e dores coisa que nunca sentiu!

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

19
Jun15

E ainda esperam que alguém pague para ler jornais...


Se passam por aqui de forma mais ou menos assídua recordam-se certamente disto. Uma chatice que a ó menina teve que driblar porque uma 'jornalista' ameaçava denunciar qualquer coisa sem fundamento. Mais tarde e no post que fez no seu blog acerca do meu, que estava até então em sossego, esclareceu que na sua profissão escrevia 'artigos' encomendados pelas marcas a troco de brindes. E diz que sim, que é uma coisa muito bem feita e que a deixa feliz. Não duvido mas, não aceito que o compreenda como jornalismo.

 

Entretanto, surgiu recentemente um grupo com o nome de 'Jornalismo pago à peça', cujo blog foi removido. Propunham-se denunciar casos em que o jornalismo se colocava ao serviço de interesses económicos. Do que tive acesso limitou-se a realizar denuncias acerca do trabalho de uma jornalista, ligada à área da saúde e indústria farmacêutica, quer fosse verdade ou mentira a criação desse grupo é um exemplo daquilo a que o jornalismo chegou.

 

Já esta semana,  vários órgãos de comunicação social descobriram os Call Centers. Referiram-se a eles, maioritariamente, pela percentagem elevada de empregabilidade. O 'Dinheiro Vivo' decidiu referir-se a eles como um 'paraíso' com remunerações médias de 730 euros, formações de 60 dias e elevada possibilidade de progressão na carreira...fazendo de caminho publicidade a uma seguradora através da referencia a uma minha colega, a Marta da OK Telesseguros e permitindo a empresas de trabalho temporário que trabalham para grandes grupos económicos em regime de outsourcing publicitar condições que não concedem, de facto, aos seus trabalhadores sem que as mesmas fossem alvo de qualquer escrutinio. (já trabalhei para uma delas!)

 

Em que é que um caso se liga ao outro e sucessivamente? 

A falta de princípios é a mesma, independentemente da escala do 'negócio' ou 'jornalista'.

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

 

 

14
Jun15

da Inveja


A ó menina não é pessoa de invejas mas, também não é de ferro e sente um bocadinho de inveja quando está a trabalhar, confinada ao barracão e a meio de uma tarde solarenga de Domingo alguém lhe diz:

 

- Boa tarde! ó menina falo aqui do Vale do Paraíso...

 

ps Os portugueses acham que somos todos vizinhos por isso, indicam a localidade de onde estão a telefonar para ser mais fácil reconhecê-los.

Eu tento sempre mas, às vezes é difícil

- ó menina, fala o Manuel da França...

- Não me leve a mal mas, eu conheço muita gente aí, na França. Penso (não digo!).

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

 

 

13
Jun15

Confesso que também tenho aversão a pulseiras electrónicas


Verdade!

Eu também tenho aversão a pulseiras electrónicas.

Tudo começou quando, apesar de o ADSL com wireless  já ser uma realidade, metade do país ainda estava ligado por dial up. As pulseiras electrónicas viraram moda e vocês não imaginam a trabalheira que isso dava à ó menina. Coisinha mais sensível, uffa... 

 

 

ps Sim. Quem trabalha num call center tem acesso a mais informação do que se imagina mas, não é uma ameaça. Os trabalhadores de call center assinam um contrato de confidencialidade e a quebra desse contrato tem consequencias mais nefastas na sua vida do que a quebra do segredo de justiça tem na dos agentes judiciários.

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

09
Jun15

A ó menina, apela ao sr Cavaco que dê uma medalha ao Boneco Verde dos Semáforos, no 10 de Junho


A ó menina não compreende o baixo índice de felicidade dos portugueses. 

Todas as noites, apesar das agruras relatadas, mais as que se podem adivinhar, a ó menina tem momentos de grande felicidade.

Ocorrem no regresso a casa, sempre que pára num semáforo.

Quando vê o Boneco Verde chegar, para substituir o Vermelho no final da angustiante contagem decrescente, a ó menina solta um sorriso. 

Mesmo que o dia tenha sido mau, o autocarro se tenha atrasado, se adivinhem matilhas de cães vadios e jovens mal educados a gritar impropérios, das janela dos automóveis, no resto do caminho, a ó menina sorri!

No fecho de cada dia o boneco está lá para lhe dar passagem. A ela e a milhares de portugueses. Não falta!

É por isso que a ó menina apela ao sr Cavaco que condecore também o Boneco Verde dos Semáforos. Nunca fará o mesmo pelo ingrato Boneco do Multibanco que faz cara de escárnio sempre que espreita a miséria do seu saldo mas, o fiel Boneco Verde dos Semáforos merece o seu apelo.

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

 

07
Jun15

Querido diário #


Hoje, quando saí do depósito onde nos guardam para roubar a alma, vi-me envolvida por nuvens negras, grossos pingos de chuva e raios, muitos raios. 

Pensei, finalmente Deus ouviu as minhas preces! Pediu ao Inferno que me levasse. Nunca mais volto aqui! 

Abri os braços e gritei: 

 

Um raio que me leve!

 

Infelizmente, estava enganada.

Nenhum raio me levou.

Cheguei a casa inteira.

No entanto, como sabes, o meu lema é: resiliência. Por isso, não desisti! Estou neste momento a escrever ao som de uma intensa trovoada, tenho vários equipamentos eléctricos ligados e uma, uma única janela aberta... 

A esperança é a última a morrer, o que só por si me dá algum alento, nós vamos antes dela. Acredito que se continuar a tentar me livro daquilo...

 

a tua, ó menina.

07
Jun15

E tu? Gostavas de ter a vida da ó menina?


Sábado, fim de tarde e a ó menina tremia de frio.

 

Na véspera, o sono tardou em chegar mas, de manhã não se fez rogado e a ó menina acordou tarde. Foi o telemóvel que a despertou. Era a empregada do prédio, exigia o seu 'cacau'. Ó Dona ó menina pensei que se tinha esquecido de me pagar... 

A ó menina não gosta de administrar o condomínio e é nessas alturas que inveja o 'esposo' que algumas clientes lhe esfregam na cara via headset. Faz-lhe falta um esposo! Alguém que se ocupe das contas e outras coisas práticas. Por vezes, o desespero é tanto que, a ó menina, preferia ser uma dona de casa como as de antigamente a ser dona da sua casa. 

 

Desceu a escada a correr. Aqui está o seu cacau! Subiu a escada a correr. Uffa!

 

Tinha enfiado, à pressa, um iogurte na mala não fosse a correria dar-lhe uma fraqueza e adivinhando o frio do call center transportava um casaquinho na mão.

Por correr, entendam, andar apressadamente. A ó menina coxeia em esforço, não corre, caminha. A pressa diminui na proporção a que a dor aumenta no avanço da caminhada.

Foi uma grande derrota ver o autocarro escapar-lhe por uma nesga!

Sem tempo para ir a pé a ó menina apressou-se a sacar uma nota ao multibanco mais próximo e tomou um táxi.

Quando chegou ao trabalho, depois de tanta correria, já ia sem o casaquinho. Como foi que aconteceu permanecerá um mistério, a ó menina vai ter saudades daquele borboto.Nesse fim de tarde, lamentava o sucedido quando um cliente, que a acusava de estar a tomar uma opção pessoal ao não lhe repor o serviço que dizia não ter pago contando com a generosidade da empresa, questiona:  - Gostava de ter a minha vida? Eu se contrato o serviço é para usufruir dele. A vida está difícil e o dinheiro não estica...

A ó menina que tinha estado todo o Sábado a trabalhar, com frio, num edifício quase sem janelas e um ar condicionado 'esquisito' lembrou-se da sua vida e dos últimos dias. 

Lembrou-se que tinha as suas contas em dia apesar de o último mês ter sido complicado. Que viu a máquina de lavar rebentar e inundar-lhe a marquise e que sem reparo foi necessário substituir. Que Maio lhe deu a perceber que a ministra das finanças tem razão, os cofres do Estado estão cheios. Só podem estar! De 680 euros a ó menina largou 51 para o IRS e 76 para a segurança social tudo porque ainda não se decidiu a seguir o conselho da ministra e procriar. Se a ó menina tivesse seguido o conselho poupava uma fortuna nas retenções, dava para 2 dias de pão e o menino seria feliz e nutrido. 

(É difícil perceber porque é que a ó menina ainda não se decidiu a procriar com tamanho vencimento, certamente tem a ver com aquilo do esposo...)

 

Enfim, a ó menina pensou em si, na sua vida, nas suas frustrações, na sua luta para estabelecer prioridades mantendo os compromissos que assume e, cansada de tentar explicar muito delicadamente que quem quer alguma coisa tem que fazer a sua parte e pagar para a ter, resistiu com bastante dificuldade a perguntar:

E tu? Gostavas de ter a vida da ó menina?

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

03
Jun15

ó menina, gostavas de ser pulverizada viva?


 

Queria contar-vos uma história mas, agora, com aquilo dos caracóis tenho medo...

É que há por aí muitos grupos extremistas: a extrema direita, a ETA, o Estado Islâmico... mas nenhum é tão violento como o dos defensores dos animais.

 

Pronto, pronto... já que pedem tanto, eu corro o risco e conto na mesma.

 

Há umas semanas, quando o calor começou a apertar, acordei, tratei da higiene ainda com os olhos semicerrados e contrariada preparei-me para sair. Pus a minha capa, qual super-mulher e arregalei os olhos, despertando para a atenção que a centena de clientes que me espera todos os dias merece. Foi então que quando ia pegar na minha mala, estrategicamente largada ao calhas na secretaria que fica junto à janela, me deparei com um carreiro de pequenos seres que saíam apressados pelo orifício da fita da persiana.

Dezenas de formigas tinham decidido visitar o meu quarto nesse dia. Andai lá, que quando voltar trato-vos da saúde! Pensei eu, encarnando a costela nortenha que me visita nessas horas.

Atrasada, como sempre, a ó menina (que sou eu, caso estejam a questionar) fez um sprint até à paragem do autocarro, rezou toda a viagem para que os semáforos estivessem verdes e há hora devida estava na sua secretária a trabalhar Olá, fala a ó menina, em que posso ajudar? quando vê passar à sua frente, sobre o tampo da sua alva secretaria, um pequeno ser e pensa - olha, olha, aqui também há formigas! 

Passou a primeira, passou a segunda, passou a terceira... e a ó menina achou estranho que tantos pequenos seres viessem da zona onde tinha pousado, estrategicamente, a sua mala. Foi então que, em camera lenta, agarrou na mala e percebeu que tinha transportado consigo, ao ombro, desde casa até ao trabalho, um autentico formigueiro. 

Assim que teve oportunidade a ó menina foi à casa-de-banho revirar a mala e revirar-se a si. Despiu, sacudiu e vestiu várias vezes a roupa até sentir que se tinha livrado da praga. No regresso a casa, comprou uma lata do melhor mata formigas que encontrou despejou-a inteirinha no quarto e nunca mais se avistaram os pequenos seres.

 

Agora, vêm os defensores dos animais e perguntam:

- Ó menina gostavas que te pulverizassem viva?

E a ó menina:

- Hum... Se for com o melhor Chanel, porque não?

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

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