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Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

07
Jun15

E tu? Gostavas de ter a vida da ó menina?


Sábado, fim de tarde e a ó menina tremia de frio.

 

Na véspera, o sono tardou em chegar mas, de manhã não se fez rogado e a ó menina acordou tarde. Foi o telemóvel que a despertou. Era a empregada do prédio, exigia o seu 'cacau'. Ó Dona ó menina pensei que se tinha esquecido de me pagar... 

A ó menina não gosta de administrar o condomínio e é nessas alturas que inveja o 'esposo' que algumas clientes lhe esfregam na cara via headset. Faz-lhe falta um esposo! Alguém que se ocupe das contas e outras coisas práticas. Por vezes, o desespero é tanto que, a ó menina, preferia ser uma dona de casa como as de antigamente a ser dona da sua casa. 

 

Desceu a escada a correr. Aqui está o seu cacau! Subiu a escada a correr. Uffa!

 

Tinha enfiado, à pressa, um iogurte na mala não fosse a correria dar-lhe uma fraqueza e adivinhando o frio do call center transportava um casaquinho na mão.

Por correr, entendam, andar apressadamente. A ó menina coxeia em esforço, não corre, caminha. A pressa diminui na proporção a que a dor aumenta no avanço da caminhada.

Foi uma grande derrota ver o autocarro escapar-lhe por uma nesga!

Sem tempo para ir a pé a ó menina apressou-se a sacar uma nota ao multibanco mais próximo e tomou um táxi.

Quando chegou ao trabalho, depois de tanta correria, já ia sem o casaquinho. Como foi que aconteceu permanecerá um mistério, a ó menina vai ter saudades daquele borboto.Nesse fim de tarde, lamentava o sucedido quando um cliente, que a acusava de estar a tomar uma opção pessoal ao não lhe repor o serviço que dizia não ter pago contando com a generosidade da empresa, questiona:  - Gostava de ter a minha vida? Eu se contrato o serviço é para usufruir dele. A vida está difícil e o dinheiro não estica...

A ó menina que tinha estado todo o Sábado a trabalhar, com frio, num edifício quase sem janelas e um ar condicionado 'esquisito' lembrou-se da sua vida e dos últimos dias. 

Lembrou-se que tinha as suas contas em dia apesar de o último mês ter sido complicado. Que viu a máquina de lavar rebentar e inundar-lhe a marquise e que sem reparo foi necessário substituir. Que Maio lhe deu a perceber que a ministra das finanças tem razão, os cofres do Estado estão cheios. Só podem estar! De 680 euros a ó menina largou 51 para o IRS e 76 para a segurança social tudo porque ainda não se decidiu a seguir o conselho da ministra e procriar. Se a ó menina tivesse seguido o conselho poupava uma fortuna nas retenções, dava para 2 dias de pão e o menino seria feliz e nutrido. 

(É difícil perceber porque é que a ó menina ainda não se decidiu a procriar com tamanho vencimento, certamente tem a ver com aquilo do esposo...)

 

Enfim, a ó menina pensou em si, na sua vida, nas suas frustrações, na sua luta para estabelecer prioridades mantendo os compromissos que assume e, cansada de tentar explicar muito delicadamente que quem quer alguma coisa tem que fazer a sua parte e pagar para a ter, resistiu com bastante dificuldade a perguntar:

E tu? Gostavas de ter a vida da ó menina?

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

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