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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

A Altice sempre foi boa a vender gato por lebre

ó menina, 15.01.20

'A Altice Portugal anunciou hoje o início de uma nova operação em Portugal, através da Intelcia (que opera na área de outsourcing ou subcontratação de serviços), a qual vai incorporar cerca de 2 mil pessoas da ManpowerGroup Solutions num processo que deverá estar concluído até Março. Assim, a Intelcia Portugal, que é detida em 65% pela Altice Portugal, passa a ser o prestador preferencial dos serviços de atendimento ao cliente da dona da Meo, pelo que as áreas de contacto com o cliente e comercial, que eram asseguradas até agora pela ManpowerGroup Solutions, vão passar a ser totalmente assumidas por aquela entidade'

(...)

“a empresa deixa de pagar à ManPower por esse serviço e passa a pagar a si própria, porque passa a subcontratar a uma empresa que é do próprio grupo”

(...)

'deixa os trabalhadores fora da contratação colectiva, fora da progressão na carreira e fora dos serviços de saúde internos da antiga Portugal Telecom, e mantém-nos no Código do Trabalho, no mínimo dos mínimos que a lei permite”, sustenta o STCC.'

Posto isto, a Altice passa a poupar alguns milhões de euros ao eliminar uma empresa intermediária mas continua a contratar através de outsourcing trabalhadores que manterá na precariedade a que estão habituados.

Para ler o artigo completo seguir link para o Público.

(isto sim, é o que se espera de um sidicato)

dog+outsourcing+board+room+cartoon.png

imagem via smeltzer cartoon

 

Contem-me tudo! Não escondam nada!

ó menina, 14.01.20

Este post surge para partilhar outras vozes e para saciar a curiosidade crescente que tenho em saber quantos de vós trabalham, já trabalharam em call centers ou lidam diariamente com alguém que o faça.

Podem responder por email para omenina@sapo.pt. Deixar um link para um post ou simplesmente deixar uma resposta na caixa de comentários.

Então,
Quem de vós trabalha, trabalhou em call centers ou conhece alguém que o faça?

Acho que todos podemos beneficiar desta partilha de experiências.

O C.C que também trabalha num call center e partilhou no seu blog um pouco das suas condições de trabalho.
Fiquei a saber que no seu Call Center o salário base não se fica pelo mínimo, ao contrário do meu.
Também percebi que há possibilidade de progressão com aumento de salário, no meu não existe a não ser para quem sobe a coach mas isso tal como no dele é reservado a quem 'cai em graça'.
Infelizmente tanto no call center do C.C como no meu a precariedade é a mesma e apesar dos mimos que ele recebe a nuvem negra que paira sobre nós é a mesma.

O trabalho de Call Center está actualmente disseminado por muitos sectores, quase todas as marcas necessitam de operadores de Call Center mesmo que não o façam através dos malfadados outsourcings.


Então? O que têm para contar?

 

cerveja.jpg

Anuncio da cerveja Budweiser, 1941

 

Obrigada, pela disponibilidade!

Em Braga como no mundo

ó menina, 13.01.20

Seria de esperar que quezílias pessoais, que ainda não abandonaram o campo do alegadamente, se mantivessem secundárias em relação às causas reais que os sindicatos deviam usar para crescer de forma saudável conquistando mais trabalhadores para a luta do reconhecimento de um sector que, não sendo reconhecido como profissão, não tem acesso à negociação colectiva. Mas só 16% dos trabalhadores portugueses são sindicalizados, percentagem essa que reduz substancialmente no sector dos call center, os sindicatos afectos às grandes centrais sindicais ignoraram, até agora, o sector porque estavam concentrados a negociar as indemnizações dos quadros das empresas de telecomunicações que dispunham de melhores salários para pagar as quotas e quando os trabalhadores começaram a organizar-se num sindicato o STCC resultou um pouco amador e mais belicista do que devia.

Sim! Perigoso!  A falta de disponibilidade para trabalhar com outros sindicatos e a falta de disponibilidade de outros sindicatos para trabalhar com eles resulta em acções isoladas onde eram 40 mas na foto só aparecem 5 onde a representação dos outros trabalhadores e das 'suas queixas', é esquecida ou retardada.

Mais trabalhadores sindicalizados, mais diálogo, discussão, diversidade e empenho do sindicato em causas justas e legalmente mais do que justificadas podem ajudar a melhorar a imagem com que o STCC sai de algumas acções. Nada há a apontar ou discordar quanto a uma demonstração de solidariedade aos delegados sindicais suspensos em Braga mas já me começa a faltar a paciência.

Ainda assim, eram 40 só apareceram 5 mas lá se falou de qualquer coisinha que interessa a todos. E que coisinha foi essa?Perguntam vocês. 

Casas de banho. Falou-se em casas de banho. 

Não sou eu que insisto neste assunto! Este assunto persegue-me! E vem de todos os lados, desta vez veio de Braga.

20200113_214642.jpg

ps Este espaço emite opiniões que são da minha única e exclusiva responsabilidade.

Sorriso na voz

ó menina, 08.01.20

Não nos conhecem, não sabem a nossa história mas continuam a exigir um sorriso na voz. 

Não nos conhecem, não sabem a nossa história mas continuam a ignorar um sorriso na voz. 

 

FZ5_812 (1).jpgna imagem, anuncio,1943, Bell Telephone System, WWII War Military Communication

E com um sorriso na voz, digo-vos que disponham sempre!

Pergunta que não quer calar

ó menina, 05.01.20

'Os problemas amorosos são a principal origem das depressões?
Os problemas nas relações mais próximas, mais íntimas, mas atualmente aparece também muita patologia relacionada com o trabalho, é uma das diferenças. Burnout, stress crónico, a própria depressão – o burnout acaba numa depressão se persiste. Vemos casos dramáticos por exemplo em França, com a vaga de suicídios na France Télécom.

Antigamente as pessoas também trabalhavam muito, de sol a sol, o que mudou?
Hoje as pessoas não dão conta que trabalham muito e de que são abusadas. Dantes trabalhavam de sol a sol mas se o capataz ou patrão desaparecia, pousavam a enxada, fumavam um cigarrinho, protestavam. Hoje não falam, cheguei a ouvir relatos de pessoas na Volkswagen ali em Palmela a quem eram descontados os minutos para ir à casa de banho.

Houve o caso denunciado recentemente de uma funcionária do Pingo Doce que acabou por urinar na caixa por não ter podido ir à casa de banho.
Isso acontece no local de trabalho e depois as chefias telefonam, mandam emails para casa, querem resposta na hora. É preciso lutar contra isto. Neste ambiente, criam-se hábitos estranhos. Há uns tempos veio procurar-me uma pessoa que estava deprimida, era burnout, mas neste caso era alguém que trabalhava como freelancer... As pessoas habituaram-se de tal maneira ao excesso de trabalho que se impõe a si próprias ritmos excessivos. Só há um processo para sair disto, que é não estar em excesso de trabalho.'

Coimbra de Matos, em entrevista ao jornal I no dia em que celebra 90 anos

Como? Questão que se impunha e continua sem resposta.

Como? Como é que alguém escapa a isto?

🚻 Para totós

ó menina, 02.01.20

Aproveitando-se de uma crescente vontade dos empregadores em controlar e monitorizar actos privados dos funcionários, uma empresa britânica tratou de patentear uma sanita desconfortável para que nenhum trabalhador passe mais do que 5 minutos na casa de banho.

Já falamos disso aqui, no post Pausa para 🚾 quando referi o documentário 'Time Thiefs' de Cosima Dannoritzer a publicação Hazards e a sua secção TOILET BREAKS onde dão espaço aos trabalhadores para denunciar situações em que o direito de ir à casa de banho lhes é sonegado ou em que se vêem penalizados por causa dele.

Estranho, sempre, que necessidades tão básicas e de todos sejam utilizadas para fins tão desonestos e ofensivos.

Portanto, não vá alguém lembrar-se de instalar uma sanita com inclinação de 13 graus, lá no barracão, muni-me da bibliografia necessária para saber tudo sobre as idas à casa de banho no local de trabalho. (Não vou traduzir o título! Procurem no Google!)

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Oh, ora essa! Não precisam, agradecer...

 

 

Back to Business

ó menina, 27.12.19

Os dias entre festas são dias de trabalho redobrado para os que não podem fazer férias.

Eis-me aqui a trabalhar como se não houvesse amanhã, são as taxas, as taxas não param! E, a partilhar o que de interessante se passa no reino dos barracões em Portugal.

O ano termina com a manifestação de dirigentes sindicais do STCC em Braga, trabalhadores da Randstad a prestar serviços para a Apple através da americana Concentrix.
Segundo estes trabalhadores a empresa, Randstad, usa uma alegada violação de confidencialidade de um cliente como razão para o despedimento de um deles, três outros trabalhadores foram suspensos sem que lhes tenha, ainda, sido comunicada a razão.
Aparentemente, estes trabalhadores não podem dizer que trabalham para a maçã mordida, os 'amaricanos' adoram a mão-de-obra barata portuguesa mas não querem que se saiba.
Alegadamente, a verdadeira razão para despedimento e suspensões é o facto de a empresa estar a retaliar uma denúncia de alegado assédio moral a uma comunicadora.

Tudo isto será julgado em sede própria.
No entanto, sei duas ou três coisas que as empresas de trabalho temporário podiam fazer para evitar estas situações e sair melhor no retrato:

- colocar pessoas formadas em psicologia do trabalho, direito ou outra nas operações a tratar as questões relacionadas com recrutamento, administrativas, etc. Em vez de gerir à distância deixando essas funções para quadros intermédios, até porque, sabem perfeitamente que os cargos de supervisão não são atractivos pelo que não conseguem contratar os melhores para as funções.

- Não conseguindo retirar aos quadros intermédios funções administrativas as empresas de trabalho temporário deviam perder algum tempo a formar essas pessoas, chefinhos, cuja ignorância (confesso!) me tem proporcionado briefings muito interessantes mas difíceis de suportar, pela dificuldade que tenho em conter o riso e pelo quão perto fico de fazer uma queixa à ACT ou ao tribunal do trabalho por assédio moral sempre que um deles reage confrontado com a própria ignorância. Como se não lhes bastasse a ignorância sobre questões administrativas e legais tendem a ser muito maus na gestão e relação interpessoal apesar de serem responsáveis por coordenar equipas.


É muito fácil a uma empresa livrar-se de um trabalhador a quem paga o salário mínimo, no entanto, num momento em que felizmente há alguma dificuldade em recrutar seria bom pensarem se não será melhor livrarem-se da maçã podre que vai contaminando o cesto e impedindo novas maçãs de amadurecer mesmo que a maçã podre seja a maçã rainha. Poupavam em indemnizações e em acordos que normalmente é onde estes processos que começam na incompetência de quadros intermédios vão parar, masnão sem antes levar trabalhadores competentes a um estado de exaustão e humilhação do qual é difícil resgatá-los e nós não queremos ser a china. Ou queremos?

ps Sobre confidencialidade e privacidade também tenho duas ou três coisas a dizer, mas como são sobre a minha privacidade, os meus dados pessoais, envolvem o facto de a minha segurança ter sido colocada em risco pela organização em que trabalho e ainda aguardo uma resposta antes de avançar para as instâncias competentes, deixo-as para outra altura.

Atentamente, Ó Menina.

 

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Na imagem, Trabalhadores da Foxconn, trabalhavam para a Apple quando 13 dos seus colegas se suicidaram no início da década que está quase a terminar, temos um ano para mudar isto.