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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Modernices...

ó menina, 30.07.15

Confesso que sou um bocadinho avessa a maquinetas com botõezinhos e afins por isso, quando um cliente me contacta com dúvidas acerca do manuseamento de algum equipamento sou completamente solidária.

Eu bem sei o que passei com a última televisão que se comprou cá para casa... O raio do aparelho era fininho e não havia meio de lhe conseguir encaixar o napperon em cima.

 

Mas, às vezes surpreendo-me!

 

- Ó menina, estou muito chateado!  Venderam-me para aqui um serviço a dizer que ia ter muitos canais, muitos canais...mas, eu só tenho mais meia dúzia e são de notícias! Acho que estou a pagar muito por isto...

- Lamento! Vamos fazer alguns despistes para perceber o que se passa. Pode por favor colocar no canal 64?

- 64!?! Ó menina, está a gozar comigo? Como é que eu ponho no 64 se o meu comando só tem 9?

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

Nada mais importa se uma borboleta nos beija

ó menina, 27.07.15

Ontem, no final de mais um dia complicado, vinha no autocarro com uma enxaqueca terrível, um enorme desanimo e uma grande tristeza não só pelo trabalho mas, por coisas minhas que também as tenho e entrou pela porta do autocarro, numa paragem mais demorada, uma borboleta. Coitadinha! Ao inicio parecia perdida, já era noite e uma borboleta tão delicada e colorida não devia andar por ali.

Rodopiou mas, bateu as asas resiliente, não se deixou dominar pela luz artificial nem temeu entrar no mundo dos 'homens'. Parecia trazer uma missão e fiquei pasma quando percebi que essa missão me incluía. 

A borboleta entrou no autocarro, percorreu o corredor até mim, beijou-me as mãos e saiu por onde tinha entrado.

 

Podem alegar que a borboleta apenas me tocou para perceber se as minhas alvas mãos, típicas de quem passa o dia no barracão e não apanha sol, lhe serviam de porto seguro  e que ao aperceber-se que não foi embora. Eu rejeitarei qualquer tipo de alegação nesse sentido.

 

Ontem uma borboleta beijou-me as mãos, fez-me sorrir e eu esqueci-me do resto!

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

A Índia está a ficar cara

ó menina, 02.07.15

A Índia está a ficar cara. Por isso, os senhores que mandam naquilo da Europa querem afundar a Grécia. A 'questão grega' dá-lhes uma boa desculpa para manter os países mais pequenos ou periféricos sob o jugo da austeridade e com uma mão-de-obra qualificada barata pronta a servir os seus interesses económicos. 

Em Amarante, vai abrir um novo Call Center.

Ás meninas e aos meninos que concorram é exigido que sejam fluentes em Francês. 

Os responsáveis pela Câmara  Municipal, à semelhança de outros autarcas e governantes, regozijam e ajoelham agradecidos pelo investimento. Difícil será perceber o que pensam acerca da falta de regulamentação da profissão, dos baixos salários e da exploração a que os trabalhadores do sector estão sujeitos, até porque para eles está tudo bem, Portugal está em recuperação e Portugal não é a Grécia (infelizmente! Digo eu, infelizmente Portugal não é a Grécia!).

 

Em França, uma hora de trabalho num call center custa ao empregador cerca de 32 euros em Madagáscar 9 euros, em Portugal a ó menina e os colegas recebem 3,15 euros. Os valores referidos pelos patrões para remuneração máxima possível incluem prémios cujas condições de atribuição estão em constante mudança nem sempre comunicada ao trabalhador e as metas são inatingíveis. Um engodo desnecessário pois em Portugal as pessoas estão necessitadas, no limiar de perder o pouco que lhes resta e só lhes resta a dignidade.

 

 

Se alguém, por lá, precisar de comer as condições estão aqui.

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!