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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

'Excrementado'

ó menina, 28.09.15

Há dias dizia-me um cliente:
- Menina, eu já sou velho. Já estou excrementado, sabe?

- !?!?

- Ex-cre-men-ta-do!

-Ó menina, tens que lavar os ouvidos. - Pensei

Mas, o senhor repetiu:

- Excrementado, blá blá blá... Excrementado! Ai e tal... excrementado...

Então, pensei:

- Pois, vendo bem...

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

ps. O senhor era do norte queria certamente dizer: Experimentado

 

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Quando eu era pequenina gostava de telefones

ó menina, 28.09.15

Quando era criança as minhas brincadeiras eram diferentes das dos miúdos de agora.

Nas férias de Verão, que eram intermináveis, aproveitávamos a existência de um telefone fixo sem vigilância e de um enorme livro de nomes e números que ficava logo ali, ao lado do aparelho, e tratávamos de nos divertir.

 

 

Letra C

- olá, fala de casa do senhor Coelho?

- sim!?

- então fuja que abriu a época de caça!

 

 

Letra T

- olá, é do talho?

- sim!

- tem cabeça de porco?

- sim!

- então, ronque!

 

118 (serviço informativo)

-ó menina, qual foi o primeiro rei de Portugal?

- Dom Afonso Henriques!

- CERTO!!

 

Eu divertia-me com telefones!

Pergunto-me como é que passei do divertimento à aversão só contrariada pelas contas que tenho para pagar.

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

 

 

Longe de mim fazer de alguém burro

ó menina, 25.09.15

 

As pessoas que merecem o título tratam disso sozinhas.

 

- Ó menina, liguei para aí há uns minutos e a sua colega disse-me que para aceder ao voice mail devia marcar *200 mas, não consigo. Como é que eu marco isso no telefone?

 

Habituada a que o asterisco seja tratado pela maioria dos clientes por: astrisc, asteristico, Astérix...A ó menina passa a explicar:

- Marca o asterisco que é a estrela que fica por baixo do 7 ao lado do...

 

-Ó menina eu sei o que é um asterisco! - Interrompe a cliente, indignada por lhe estarem a explicar como se fosse um garoto - Eu não sou tão limitada! O que eu não estou a perceber é como é que se marca o duzentos!

 

- !?! Então, para marcar o duzentos, marca 2, seguido de um 0 e depois outro.

 

Obrigada, pelo seu contacto!

Peso de consciência

ó menina, 17.09.15

Menti a um senhor da Eurostat, agora temo que a campanha se centre em torno do resultado de uma estatística falseado, por mim. Eu sei que não se faz mas, não me lembrei que estava a responder a um colega...pesa-me na consciência porque eu sei que as sondagens são coisas muuito sérias.

Se pagarem bem até sou capaz de os parir por vós

ó menina, 17.09.15

- Ó menina, a minha factura está muito alta. Estão aqui consumos associados ao telemóvel da minha filha e vocês dizem que mandam alertas quando está a acabar o plafon mas, ela diz que não recebe.

- Qual é o número de telemóvel da sua filha, por favor?

(...)

 

A ó menina faz a sua magia e começa a confrontar a cliente, com um tom de voz seguro

 

- Foi enviada mensagem de alerta de que estava a terminar plafon de serviço de dados no dia x há hora y, mensagem recebida pelo número da sua filha sem erro. Acerca do mesmo plafon foi enviada mensagem de fim com alerta para cobrança no caso de continuar a usar no dia X há hora y, recebida sem erro. Para plafon de sms...

- Ó menina mas, ela diz que não recebe. 

- Lamento, os consumos foram realizados e nós alertamos para o fim do plafon na mensalidade.

- Ó menina mas, ela diz que não recebeu e a factura está tão alta...

- Se quiser barramos os consumos adicionais desse número

- Não, eu quero dar liberdade à miúda e confio nela. A outra menina com quem falei o mês passado já tinha proposto isso mas, não quero.

- Seria uma forma de gerir os consumos...

- Mas, eu não quero. Ó menina! A menina não consegue desta vez fazer um descontinho? Tirar-me essas chamadas e consumos de internet? Fazer, assim, vistas grossas? - Diz a cliente, mãe por um qualquer acidente do destino.

 

Indignada, com o facto de lhe estar a ser pedido que coloque o seu emprego em risco e credite comunicações só porque uma mãe se demite do seu papel e não quer chatear a filha, a ó menina demora algum tempo a responder

 

- Sim! Ó menina, está a ouvir? Pode?

- Não lamento.

- Não! Isso deixa-me muito triste. Sabe qual é a minha vontade?

- Falar com a sua filha?

- Não a minha vontade é deixar esta operadora que não ajuda nada os clientes...

 

A chamada termina com um 'Obrigada, pelo seu contacto' que custou muito a engolir à ó menina.

 

Quando alguém se propõe conscientemente a pai/mãe, a Segurança Social nega-lho porque não tem duas casas-de-banho. Uma funcional para um agregado de 3 não chega são necessárias duas. Gostava de saber o que a Segurança Social escreveria num relatório acerca destes pais, com os quais me cruzo em linha diariamente e que estão endividados, a reclamar para tentar um descontinho ou a mendigar um 'plafonamento' enquanto defendem os meninos que querem adultos com liberdade e para os quais estão a comprar iphones a prestações porque como vão para o liceu dizem que é necessário...

A minha mãe trataria das minhas ´borradas´ com um par de estalos, nunca tentaria maquilhá-las através de terceiros.

 

 

 

 

 

 

A ó menina explica aos chefes

ó menina, 04.09.15

 

Devagar e em estrangeiro, por ser mais fino ou então só porque teve preguiça de traduzir.

 

'So here you are at a call center: People are calling up because they have a problem, they can’t get the software to work, or they don’t know how to set up the new computer—whatever it is. They have a problem, and you can solve their problem and improve their lives as a result. All of a sudden it’s not drudgery anymore, because somebody’s life is going to be better as a direct consequence of what you do.

But when your supervisor starts putting the screws to you to make sure you get as many calls-per-hour as you possibly can, you lose sight of the mission—which is to solve problems—and the mission just becomes terminating the calls. You know, get this person off the line, give them a non-solution as long as he seems satisfied, so he’ll hang up. Why would anyone do that job? The answer is for the paycheck. Why else would you do it?

 

Instead, you can inspire people even if their minute-to-minute activities are mostly routinized, if you describe the vision of the good that their work achieves. They’ll even tolerate the routinized work and they’ll also extend themselves to see if they can figure out ways to do this better, more efficiently, and more effectively. Of course, they’ll only do that if they have some confidence that if they make a suggestion, you’ll listen.'

 

Barry Schwartz, professor de psicologia na Swarthmore College e autor do livro Why We Work, em The Atlantic

 

Obrigada, pelo seu contacto!

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