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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Tempo de um xixi e muito mais

ó menina, 24.01.19

É hoje que os deputados vão discutir o sector dos call centers.

3 minutos é o tempo que cada grupo parlamentar terá para discorrer acerca da nossa profissão. Não vou querer perder, ver como se desenrascam a tratar um assunto que desconhecem num tempo tão limitado.

Nós que estamos habituados aos nossos 3 minutos de intervalo por cada hora de trabalho (24 minutos numa jornada de 8 horas) desenvolvemos estratégias, logo nos primeiros dias, para que os três minutos cheguem para comer, cumprimentar colegas, ligar à família, fumar, reclamar, trocar opiniões, tomar posições, escrever um post e fazer aquele xixi básico. Mesmo assim, às vezes falhamos e se ultrapassarmos os 3 minutos que, à cautela, reservamos para qualquer eventualidade não nos livramos de um ralhete, que vai expor-nos ao olhar dos colegas que com a gritaria descontrolada vão perceber que sim, nós também fazemos xixi, nós também temos o período e também sofremos desarranjos intestinais. 

Não sei como se vão desenrascar os deputados mas nós sabemos que com vontade 3 minutos chegam para muita coisa.

 

Entretanto já que estou a gastar os 3 minutos todos que tinha para hoje e sim, estive a blogar durante o xixi, (Quem nunca?) aproveito para agradecer a todos os que têm passado por cá. 

Não estava à espera de um regresso tão apoteótico.

Por mais que tente não consigo ver quem são as pessoas que estão a partilhar e a fazer gosto através do Facebook mas imagino que ande por aí muita malta de telemóvel escondido por baixo do teclado, no meio dos cadernos ou até na manga a partilhar e corroborar a opinião da ó menina.

 

 

Aproveito, ainda, para crescentar que estou um bocadinho triste com o DN que deu algum destaque ao assunto através de uma crónica cheia de nomes fictícios mas nenhum é 'ó menina'. O autor que também não consegui identificar e só volto a ter 3 minutos para procurar amanha escolheu 'Teresa', nome de velha e 'Carolina', nome de beta, para os seus personagens. Espero que da próxima considere 'ó menina' até porque não havia necessidade de usar nomes fictícios num artigo onde se percebe a que local se refere. Era capaz de apostar o dedo piquenino do pé em como a crónica se refere a um call center de telecomunicações de uma empresa que já teve Portugal no nome mas agora é francesa. Deixo-vos o artigo para o caso de ainda terem 3 minutos disponíveis para aquele xixi básico, assim aproveitam melhor o tempo. aqui

 

Disponham sempre.

 

 

ps Alguém quer nomear a/o supervisor que trata os colaboradores por 'chouriça' como descrito na crónica do DN? Aproveitem que eu permito comentários anónimos.

 

 

 

E se o Professor Marcelo passasse um dia num Call Center?

ó menina, 22.01.19

Ouvi dizer que o nosso Presidente Marcelo,  que Deus conserve, anda por aí a experimentar outras profissões como se faz nos reality shows. Leva uma catrefada de câmeras atrás e passa, por exemplo, o dia na estrada como um camionista. 

Ora, eu pus-me aqui a pensar e acho que o Presidente Marcelo (Será que lhe posso chamar professor como a Cristina? Bem, eu também sou bloguer e cheguei a frequentar direito, e tudo...), o Professor Marcelo fazia bem era se experimentasse passar um dia num Call Center.

Isso sim era serviço! Enfiar um headset na cabeça, quase sem formação, começar a tratar clientes tendo que atingir objetivos irreais e ter que engolir a tosta mista à pressa porque o cronometro não pára.

 

Para além de ter a oportunidade de chamar a atenção para um sector completamente desregulado, podia ser que lhe calhasse na rifa aquela senhora 'especial' que ligava todos os dias para um serviço onde eu trabalhava e nos convidava a beber um chá enquanto nos falava das suas peripécias com o Professor de quem tinha sido amiga de juventude.

 

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Ora essa! Eu sei que é uma grande ideia. Não precisam de agradecer!

 

 

Lucros dos Call Centers Triplicam mas Operadores ganham menos

ó menina, 20.01.19

 

 

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Pois é, o lucro dos Call Centers triplicou e os únicos a ganhar com isso foram as empresas de trabalho temporário que de contrato em contrato vão mantendo os trabalhadores no mesmo posto de trabalho a receber o mesmo de sempre, ou seja, o mínimo. Estas e os seus maiores clientes que as contratam através de intrincados concursos e contratos cujos 'cadernos de encargos' gostava de ver tornados públicos, principalmente os dos operadores de TV e telecomunicações essas empresas que se dizem com responsabilidade social mas não querem saber como são tratadas as pessoas que são a 'voz mais visível da marca. Onde anda a Ana Leal da TVI quando mais preciso dela? Hum?

 

 

A petição do Sindicato dos trabalhadores dos brracões (ie call centers) que deu entrada na Assembleia da República em 2016 vai ser discutida dia 24 de Janeiro de 2019, deu tempo aos exploradores de Call Centers para triplicarem os lucros e dará 3 minutos a cada grupo parlamentar para discutir a regulamentação da profissão como de desgaste rápido, à semelhança de outros países, limitar ao máximo de 75% o trabalho em linha e aumentar o tempo de intervalo para 6 minutos por cada hora de trabalho (antes de dizerem que é muito, lembro que nunca trabalhei com mais do que 3 minutos por hora controlados por um cronómetro que o próprio trabalhador põe a correr antes de se levantar do lugar ou seja se for 2 vezes por dia à casa de banho gasta em média, depois de atravessar os barracões cada vez maiores, 12 minutos e fica a  ponderar se deve ou não lavar as mãos pois só lhe restam outros 12 para beber, comer qualquer coisa ou acenar com a cabeça, de longe, a um colega que vai perceber pelo gesto se está a comentar o jogo do Sporting ou a perguntar onde é que comprou aquela camisola.)

 

Três minutos é muito pouco tempo no entanto é o reconhecimento de que o sector deve ser discutido.

Espero que todos aproveitem o momento para conhecer melhor este mundo, antes de atirarem para o mesmo saco e começarem a discorrer idiotices de como os Call Centers são uma profissão de passagem para onde vão as pessoas com menos formação impingir brindes a donas de casa. 

 

Tenho mais formação do que alguns deputados. Sou mais velha do que alguns. Tenho neste momento colegas com filhos na Universidade, outros que são avós e estão na profissão desde o século passado.

Trabalhei sempre em Call Centers que respondiam a necessidades dos clientes. Trabalhei sempre com a pressão da gravação de todas as chamadas usadas para calcular prémios, através de grelhas de pontuação com regras demasiado gerais e  cada vez mais omissas aplicadas por auditores que têm, também eles, objectivos. Tive sempre que corresponder a um 'tempo médio de atendimento' que foi diminuindo no sector o que aumenta o número de tarefas a realizar por minuto enquanto se mantém a comunicação com o cliente. 

Este mundo é um mundo onde as decisões têm que ser tomadas em segundos e delas pode depender o trabalho do cliente, o quotidiano (serviços de comunicação, água, electricidade, compras, distribuição, assistência técnica, seguros, viagens, serviços clínicos), o dinheiro do cliente ( aplicações, serviços bancários, bloqueio de cartões furtados), o tratamento dos seus dados pessoais ou assistência em caso de urgência (a saúde 24 e o INEM são call centers).

Faz sentido que hoje em dia parte do trabalho esteja suportado em plataformas digitais e formas de comunicação mais acessíveis e rápidas. Não faz sentido que quem executa esse tipo de trabalho seja diminuído porque o seu trabalho tem entre ele e o cliente um meio de comunicação e esteja sujeito ao aproveitamento do sector que estando pouco regulado aumenta a pressão, o trabalho e a exigência mas paga o mínimo.

 

Ó menina, então tu estás quase um ano sem aparecer e quando apareces é para escrever um texto deste tamanho que mais parece uma notícia do Público? - Perguntam vocês.

Pois - respondo eu, a encolher os ombros. Que quereis? Eu entusiasmo-me com estas coisas... Obrigada, pelo vosso contacto.