Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Vale sempre a pena

ó menina, 27.06.19

E nós cá os esperamos de braços abertos

ó menina, 26.06.19

O governo vai oferecer 6500 euros aos emigrantes portugueses que se lançaram, por esse mundo fora, em busca de novas oportunidades em tempo de crise e o que não falta em Portugal, agora, são empresas para os receber nos seus call centers prontas a explorar as suas novas capacidades linguísticas reconhecendo-lhes inestimável valor. 

Vão chegar charters de emigrantes ansiosos por agarrar esta oportunidade.

 

Bem-vindos, futuros Ó Meninos! Bem-vindos! 

Tempo de Mudar

ó menina, 25.06.19

Mais uma vez os 'Ó Meninos' dos call centers do projecto EDP da Randstad mostraram como se deve comportar um grupo de trabalhadores unidos que compreendem que um dos princípios da luta laboral é a solidariedade. Ontem, dia 24-06-2019, levaram a cabo uma greve que contou com 90% de adesão.

 

Em 2010, a Randstad apresentava-se como uma alternativa de confiança. Uma marca que chegava depois da Select e da Vedior para mudar o panorama laboral. Cheia de actores sorridentes como os dos bancos de imagens onde vai buscar o sorriso que os colaboradores supostamente exibem quando pensam que trabalham para a Randstad Portugal. Em vez desses sorrisos deviam filmar ou fotografar a cara dos trabalhadores quando respondem a inquéritos internos sobre a sua satisfação laboral. Melhor ainda seria filmá-los enquanto respondem a inquéritos alegadamente anónimos sobre a sua confiança na empresa esse gigante de lucros anuais a rondar os 500 milhões de euros mas que pratica salários base que não garantem ao trabalhador uma subsistência mínima, digna e sem o jugo de quem está permanentemente no limiar da pobreza (sim, o salário minimo nacional é uma merda!).

 

Não se esqueçam do sorriso na voz, Ó Meninos! Não quero que sejam despedidos...

Ground Control to Major Tom

ó menina, 21.06.19

Ground Control to Major Tom
Your circuit's dead, there's something wrong
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you...

 

Algumas pessoas ficariam muito espantadas se compreendessem o quanto a relação das empresas com o cliente é influenciada por brand storyteling  e mais ainda com a influencia que o mesmo tem na relação das empresas, marcas, corporações... com os trabalhadores, mantendo-os como audiência cativada, controlada e sincronizada.

 

Take your protein pills!

 

 

 

Estamos no interior

ó menina, 14.06.19

Sim, nós também estamos no interior e cidades mais pequenas, fora da capital.

A greve de ontem no call center da EDP, em Seia, teve 95% de adesão, num universo de cerca de 600 trabalhadores ao serviço da Manpower. Números que contam!

Obrigada, Ó Meninos da serra!

Sempre que noticias como esta são divulgadas assisto ao espanto de muitos que acreditavam, até aí, que os Call Centers eram um fenómeno exclusivo de Lisboa e Porto. Não podiam estar mais enganados.

Os Call Centers têm-se disseminado por todo o país com o patrocínio de todos nós.

Vejamos o exemplo da Altice que tem neste momento Call Centers em: Vieira do Minho, Castelo Branco, Lamego, Amarante, Guarda, Viana do Castelo, Fafe, Oliveira do Hospital, Penafiel, Viseu, Macedo de Cavaleiros e Covilhã. (informação em actualização) Para além de grandes cidades como Lisboa ou Coimbra.

Na Covilhã, a Altice abriu em parceria com a Randstad, empresa de trabalho temporário, um Call Center em Fevereiro de 2018. A Randstad contou, para a instalação do call center, com a Câmara Municipal da Covilhã que investiu 100 mil euros na criação de condições logísticas e técnicas e em contrapartida exigiu à Randstad o investimento de 3600 euros em formação por cada trabalhador (e nós sabemos para onde vai o dinheiro subsidiado às empresas para formação dos trabalhadores, certo?) e 75 mil euros de remuneração para um grupo de 100 pessoas. 

Ou seja, a Câmara Municipal da Covilhã investiu 100 mil euros para garantir que na região era instalado um Call Center, que usa a exigência de horas de formação para iniciar a sua relação com o trabalhador com um contrato de  formação de até 3 meses que são aproveitados para que o trabalhador trabalhe, de facto, sem direito a prémio ou descontos para a segurança social, (prática  de qualquer Call Center Randstad ou Manpower, eu que o diga!) e investiu 100 mil euros para garantir uma remuneração bruta a 100 pessoas de 750 euros considerando os subsídios de férias e Natal calculados em duodécimos. Tudo isto, depois de em 2013 ter financiado a instalação do Data Center da Altice, com um protocolo que convencionava a criação de 1000 postos de trabalho mas a Altice ficou-se  por 200.

Sim, estamos por todo o lado e é dinheiro público o que está a patrocinar um sector onde se aproveita a omissão legal e o desprezo de hemiciclo atrás de hemiciclo para estender os tentáculos da precariedade e baixos salários por todo o território nacional.

Pergunto-me, quando é que os call centers mais pequenos, menos visíveis e menos interessantes para a luta sindical vão beneficiar de uma concertação de forças que leve a uma iniciativa de greve nacional do sector, devidamente divulgada e difundida para afastar receios naturais em trabalhadores precários? 

 

Força nisso, Ó meninos!

 

 

Like a Boss

ó menina, 12.06.19

Há qualquer coisa profundamente bafienta que ressoa no discurso de um 'chefe' ou qualquer superior desavisado, quando nos ataca com o discurso de lamento mas ao mesmo tempo laudatório para consigo mesmo do: Acham que eu tenho menos trabalho ou ganho mais do que vocês?
A lembrar o velho discurso salazarento: Portugueses, se soubesses o que custa mandar não invejarias a minha condição...

O facto é que não os invejo mas sei o que é uma hierarquia. Percebo que as pessoas se lamentem ao nível superior não compreendo, no entanto, que o façam no sentido inverso. Principalmente em sectores precários. Do que estão à espera? De uma resposta? 

Não é um fenómeno exclusivo dos call centers e certamente, não sou a única que fica à espera que um Ó Menino ou outro desabrido qualquer responda like a boss:

Caro chefe, por quem sois? Não invejo a vossa sorte mas se estais mal no vosso lugar colocai-o à disposição, é a única atitude digna que se espera de alguém com carácter minimamente bem formado. E se invejais, de facto, o meu lugar posso dar-vos o email da empresa de trabalho temporário que recruta semanalmente para lugares como o meu, acho que tens hipótese de ser seleccionado. Porque esperas? Esperas que a cadeira parta?

 

20190611_115108 (1).jpg

Pequena amostra do que se encontra numa procura de emprego online. Sugiro a experiência.

 

Disponham sempre, bosses!

 

Pausa para xixi 🚾

ó menina, 06.06.19

Hazards é uma publicação internacional 'union-friendly' (amiga do sindicalismo) e tem uma secção onde denuncia o facto de os trabalhadores de diversos sectores serem diariamente privados de tempo para as suas necessidades mais básicas ou têm que abdicar de outros direitos para ir à casa de banho porque o controlo excessivo do tempo como sendo por si só garantia de produtividade faz com que esse tempo lhes seja roubado.

Na secção toilet breaks os responsáveis dão espaço aos trabalhadores para denunciar situações em que o direito de ir à casa de banho lhes é sonegado ou em que se vêem penalizados por causa dele.

Da sua lista constam profissões como:

Trabalhadores administrativos

Motoristas

Call Center e telesales staff  

Telefonistas 

(...)

A lista é muito grande e há espaço para que sejam acrescentadas profissões que ainda não estejam registadas.

No documentário Time Thiefs de Cosima Dannoritzer, 2018, os responsáveis pela publicação não escondem o seu espanto por terem descoberto que estas situações não acontecem apenas em países de terceiro mundo mas também em países como os EUA, a Inglaterra ou a Espanha. Surpresa ainda maior tiveram com a criatividade dos patrões ou corporações para impedir que os trabalhadores 'gastem' tempo nas idas à casa de banho.

Para impedir os trabalhadores de ir à casinha ou pressioná-los a aguentar para além do saudável os patrões: questionam e expõem o trabalhador acerca do tempo que passam na casa de banho,  penalizam o tempo de indisponibilidade com cortes de remuneração, controlam o tempo de pausa através de sistemas electrónicos que marcam a hora a que o trabalhador sai do seu posto e a hora a que regressa... soa-vos familiar? Sim, isto é o que acontece actualmente em qualquer call center!

Já trabalhei num onde para ir da PA (posto/posição) à casinha eram necessários cerca de 60 segundos cronometrados por uma colega mais rápida do que eu e noutro onde duplicaram, de um momento para o outro, o número de trabalhadores mas não duplicaram o número de sanitas ou urinóis pelo que as filas para o xixi se sucediam. Ambos tinham o mesmo tempo de pausa 3 minutos por cada hora de trabalho (24 minutos por turno de 8 horas) e ambos usavam o tempo de indisponibilidade como factor de avaliação e ponderador para o cálculo do prémio. Ainda não chegamos ao ponto em que os Ó Meninos têm que manter uma reserva de fraldas nos cacifos, até porque a maioria dos call centers não os disponibiliza, mas se não juntarmos as nossas vozes a outras vozes e continuarmos a deixar que nos roubem tempo continuaremos cada vez mais explorados e esgotados.

Pode parecer ridículo aos que não têm este tipo de controlo no seu meio laboral mas em 24 minutos cronometrados pelo relógio se formos 3 vezes à casa de banho num turno de 8 horas sobram cerca de 9 minutos dividindo-os em duas vezes e sendo que as salas de convívio e refeições estão também elas distantes das PA's temos apenas 5 minutos para comer qualquer coisa a correr, recuperar energia, descontrair um pouco, trocar duas palavras com colegas, fazer um telefonema... parece ridículo ou uma reivindicação menor mas neste sector a nossa saúde física e mental depende de uma discussão séria acerca da casa de banho e da necessidade que todos temos em usá-la.

 

 

Se em vez de 3 minutos por hora as pausas/intervalos passassem a ter 4 minutos por hora de trabalho (32 minutos por turno de 8 horas) numa profissão que é reconhecida em muitos países como sendo de desgaste rápido a produtividade das empresas não sofria significativamente mas os trabalhadores sentiriam uma melhoria significativa...roubam por roubar.

 

Link aqui e na página de Facebook onde vos aguardo para falar de xixi ou cocó ,não se acanhem