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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Recibo de vencimento de sonho

ó menina, 29.11.19

Não. Não me refiro ao facto de o recibo de vencimento deste mês incluir o subsídio de Natal. O meu salário base corresponde ao mínimo nacional e todos nós guardamos despesas extra para este mês. As propinas, o IMI, os óculos (sim, estraguei outros num incidente estúpido)...sobra-me saldo negativo.

O meu sonho é que o valor pago pela empresa utilizadora dos serviços de call center à empresa de trabalho temporário, pelo meu trabalho, conste do recibo de vencimento, assim como os lucros da empresa e a sua taxa de crescimento desde que lhes presto serviço. 

Foi o senhor da Iniciativa Liberal que me inspirou. 

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Black Friday vs Giving tuesday

ó menina, 29.11.19

Então? Entusiasmados, com as possibilidades que este dia vos reserva, a metade do dobro do preço habitual? 

 

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Banksy

Dia 3 de Dezembro decorre o 'Giving tuesday' 2019. Ao que parece as pessoas andam tão ocupadas que foi necessário colocar no calendário uma data oficial para doar.

Muitas instituições organizaram recolhas de fundos, bens ou serviços para esta data uma vez que a atenção mediática faz chegar as suas necessidades a mais pessoas. Informem-se de quais são as instituições locais a precisar da vossa ajuda e passem por lá. Façam de conta que ainda se lembram do que significa realmente o Natal!

 

Cinema sem pipoca #com nuvens

ó menina, 28.11.19

 

Alguém me lembrou de que vivemos dentro do céu e não abaixo dele. Não me é uma expressão estranha já que o seu autor é o Gavin Pretor-Pinney fundador da Sociedade de Apreciadores de Nuvens com a qual aprendi a tratar as nuvens pelo nome (não me julguem! Antes isto que acreditar que a terra é plana). Não me é estranha, mas há momentos em que acreditar nela se assemelha a um acto de fé. Crer sem ver.
Este fim-de-semana fui ver o 'Sorry, we missed you' do Ken Loach. A tradução do título para português resultou num 'Passámos por cá' que retira força ao título inglês, eu traduziria o título para um simples 'Falhámos-te', não temos que ser literais.
Falhámos-te é o que nos apetece dizer aos personagens assim que o filme termina. Segurar-lhes as mãos, olhá-los nos olhos, dizer-lhes falhámos-te como quem assume uma culpa e ficar ali uns segundos suspensos no reflexo da nossa imagem na retina deles. Identificamo-nos com eles em tantos momentos mas simultaneamente sentimo-nos parte do sistema pantanoso em que Ricky e a sua família se afundaram e de onde tentam sair desde a crise económica de 2008.
O retrato é cru, pessoal. A estrutura narrativa não é convencional, a riqueza do argumento do Paul Laverty faz-nos oscilar entre duros momentos de emoção e revolta e algumas pausas de surpresa e felicidade que nos puxam de novo para o difícil acto de fé que é acreditar que o céu é na terra.

Vejam 'Sorry we missed you' vejam o 'I Daniel Blake'.

 

 

Horário Flexível, sabem do que se trata?

ó menina, 26.11.19

Hoje circula pelos jornais um estudo que indica que as crianças portuguesas passam mais 10 horas por semana na creche do que a média europeia. Algumas chegam a estar 12 horas diárias na creche.

Apercebi-me, recentemente, que a maioria das pessoas desconhece que os trabalhadores, pais de menores de 12 anos ou maiores dependentes, com deficiência ou doença crónica, ou noutra situação que o justifique, têm direito ao regime de horário flexível.

De acordo com o disposto na alínea b) do nº 1 do artigo 59º da Constituição da República Portuguesa estabelece-se como garantia de realização profissional das mães e pais trabalhadores que “todos os trabalhadores, (…) têm direito (…) à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar.”

Assim o horário flexível tem como princípio subjacente o da conciliação da vida profissional com a vida familiar.
No entanto também tem algumas regras, a meu ver demasiado gerais que ajudam as empresas a negar ou dificultar o acesso do trabalhador ao horário flexível. Apoiados na indicação de que o horário flexível não pode afectar o regular e eficaz funcionamento dos serviços, especialmente na relação com o público os patrões têm tendência a negar este direito não só aos pais mas também às crianças. No entanto, nada justifica que tal seja negado em empresas com turnos ou rotatividade de horários como os call centers. O trabalhador que reúna as condições indicadas tem o direito de escolher a sua hora de entrada e saída.

Se conhecerem algum trabalhador em call centers, em lojas, na hotelaria, nos hospitais... onde estiverem que não esteja a usufruir do horário flexível informem-no de que não tem que passar meses à espera de uma resposta generosa do chefinho ao email onde pedia para deixar os turnos da noite ou o trabalho ao fim-de-semana.
Em caso de ser negado este direito devem recorrer à ACT e solicitar que enviem uma carta à entidade empregadora, cobrava 5 euros por este tipo de serviço na última vez que a consultei mas mesmo que cobrem mais vale a pena para passar mais tempo com a família.

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Disponham sempre!

 

 

 

Já repararam? O Natal está quase a chegar!

ó menina, 24.11.19

Pois é, o Natal está a chegar!
De repente os jingles natalícios, que os clientes mantêm como Waiting ring durante todo o ano, passaram a fazer sentido.
A Popota já anda por aí a abanar as ancas, a Leopoldina continua em parte incerta... A senhora do Ferrero Rocher vendeu a limusine e anda de comboio mas continua a desejar algo. Pensou que a crescente preocupação com as alterações climáticas ajudaria a disfarçar a decadência mas não está a resultar. Já todos desconfiavamos que a senhora andava mal de finanças... Não muda de roupa há mais de 20 anos! O pobre Ambrósio continua a suportar as contas com a reforma de motorista da Carris. Poucos são capazes de manter por tanto tempo um amor e uma dedicação tão grandes como os que o Ambrósio mantém por aquela senhora. Não deve ser fácil, reparem que ela ainda o obriga a usar roupa de motorista apesar de não ter carro.
Enfim, o Natal está a chegar os centros comerciais estão cheios, as Câmaras municipais já têm as luzinhas contratadas e as empresas já convidaram os funcionários para o jantar de Natal. Os meus patrões, como habitual, acharam importante aproveitar a data para fomentar o espírito de equipa, de pertença e convidaram-nos a participar de um jantar onde cada um paga a sua conta. Nem um bombom para cada a empresa oferece, até a pobretanas do anuncio armada em dondoca tem uma travessa cheia deles, mas nós somos muitos e os lucros no sector só têm aumentado três vezes mais, temos que compreender a situação da empresa... mas tenho muita esperança na 'consoada' que nos vai oferecer. Em qualquer pequena empresa se oferecem cabazes com bolos e espumante como reconhecimento ao trabalhador e desejando que a oferta lhe proporcione bons momentos em família. Portanto, este ano, tenho esperança de que em vez de uma porcaria qualquer a publicitar a empresa nos dêem algo com valor, mais ainda espero que tenham a decência de encerrar linhas de atendimento não urgentes na véspera de Natal e que encerrando-as não obriguem os trabalhadores a compensar essas horas ou não lhas descontem do salário como tem vindo a ser comum no sector dos call centers.

Que venha o Natal! Tenho muita esperança para ele.

 

A escravidão de muitos continua a suportar o conforto de poucos

ó menina, 19.11.19

“Uma trabalhadora sofreu a brutal humilhação de se urinar no posto de trabalho, impedida de sair do local, mesmo depois de pedir várias vezes para ser substituída, numa das caixas da loja do Pingo Doce da Bela Vista, em Lisboa”, revelou esta segunda-feira o site da CGTP, a partir da denúncia do CESP – Sindicato dos Trabalhadores do Comércio e Serviços."

via Esquerda.net 

Toda a solidariedade que nos seja possível demostrar para com alguém que se sente pressionado a este ponto será pouca. Mesmo assim mostrem-na aos funcionários do Pingo Doce da Bela Vista da próxima vez que se dirigirem lá.

Como em todos os grandes grupos económicos, na área dos serviços ou retalho, a qualidade dos produtos e do vosso atendimento depende exclusivamente dos funcionários que apesar de receberem pouco mais do que o salário mínimo se aplicam com esforço e dedicação máxima. Os patrões que controlam os números à distância estão-se a borrifar para a experiência individual de cada cliente, para eles tudo vai bem desde que as contas dêem em lucro...

 

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