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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

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ó menina, 27.12.19

Os dias entre festas são dias de trabalho redobrado para os que não podem fazer férias.

Eis-me aqui a trabalhar como se não houvesse amanhã, são as taxas, as taxas não param! A trabalhar e a partilhar o que de interessante se passa no reino dos barracões em Portugal.

O ano termina com a manifestação de dirigentes sindicais do STCC em Braga, trabalhadores da Randstad a prestar serviços para a Apple através da americana Concentrix.
Segundo estes trabalhadores a empresa, Randstad, usa uma alegada violação de confidencialidade de um cliente como razão para o despedimento de um deles, três outros trabalhadores foram suspensos sem que lhes tenha, ainda, sido comunicada a razão.
Aparentemente, estes trabalhadores não podem dizer que trabalham para a maçã mordida, os 'amaricanos' adoram a mão-de-obra barata portuguesa mas não querem que se saiba.
Alegadamente, a verdadeira razão para despedimento e suspensões é o facto de a empresa estar a retaliar uma denúncia de alegado assédio moral a uma comunicadora.

Tudo isto será julgado em sede própria.
No entanto, sei duas ou três coisas que as empresas de trabalho temporário podiam fazer para evitar estas situações e sair melhor no retrato:

- colocar pessoas formadas em psicologia do trabalho, direito ou outra nas operações a tratar as questões relacionadas com recrutamento, administrativas, etc. Em vez de gerir à distância deixando essas funções para quadros intermédios, até porque, sabem perfeitamente que os cargos de supervisão não são atractivos pelo que não conseguem contratar os melhores para as funções.

- Não conseguindo retirar aos quadros intermédios funções administrativas as empresas de trabalho temporário deviam perder algum tempo a formar essas pessoas, chefinhos, cuja ignorância (confesso!) me tem proporcionado briefings muito interessantes mas difíceis de suportar, pela dificuldade que tenho em conter o riso e pelo quão perto fico de fazer uma queixa à ACT ou ao tribunal do trabalho por assédio moral sempre que um deles reage confrontado com a própria ignorância. Como se não lhes bastasse a ignorância sobre questões administrativas e legais tendem a ser muito maus na gestão e relação interpessoal apesar de serem responsáveis por coordenar equipas.


É muito fácil a uma empresa livrar-se de um trabalhador a quem paga o salário mínimo, no entanto, num momento em que felizmente há alguma dificuldade em recrutar seria bom pensarem se não será melhor livrarem-se da maçã podre que vai contaminando o cesto e impedindo novas maçãs de amadurecer mesmo que a maçã podre seja a maçã rainha. Poupavam em indemnizações e em acordos que normalmente é onde estes processos que começam na incompetência de quadros intermédios vão parar, não sem antes levar trabalhadores competentes a um estado de exaustão e humilhação do qual é difícil resgatá-los e nós não queremos ser a china. Ou queremos?

ps Sobre confidencialidade e privacidade também tenho duas ou três coisas a dizer, mas como são sobre a minha privacidade, os meus dados pessoais, envolvem o facto de a minha segurança ter sido colocada em risco pela organização em que trabalho e ainda aguardo uma resposta antes de avançar para as instâncias competentes, deixo-as para outra altura.

Atentamente, Ó Menina.

 

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Na imagem, Trabalhadores da Foxconn, trabalhavam para a Apple quando 13 dos seus colegas se suicidaram no início da década que está quase a terminar, temos um ano para mudar isto.

Um 'avec' que chega para o Natal

ó menina, 20.12.19

 

Depois da Elsa que se revelou bastante temperamental chega o Fabien.

Um 'avec' que alimenta o sonho de ser cantor pimba com o alto patrocínio do seu pai José Manuel emigrado em Paris da França desde muito novo.

José Manuel nunca tinha saído do país até então e faz questão de regressar duas vezes por ano. Deixou de usar bancos ou seguros portugueses e a única coisa que lhe interessa é o canal do Benfica que paga com o seu carte Francês quando regressa, altura em que organiza os assuntos da vivenda que construiu na aldeia ligando para os call centers dos serviços ao final da tarde, depois de visitar dois ou três tios, com um grão na asa exigindo - Ó Menina, parle français! Porque, sim, lá em Paris da França as meninas falam com ele em português de Portugal (nop)...

Fabien, coitado, é arrastado para a aldeia duas vezes por ano o que o deixa visivelmente nervoso.

Se fosse a Luciana Abreu a dar nome às tempestades portuguesas, não tinha tanta piada.

 

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Natal, direito adquirido

ó menina, 18.12.19

Em Espanha, ali ao lado, os patrões oferecem tradicionalmente aos seus colaboradores um cabaz com produtos alimentares. Nalguns casos, o reconhecimento aos trabalhadores expressa-se em cabazes generosos avaliados em cerca de 60 euros.
Como qualquer patrão que se preze, os patrões espanhóis assim como as multinacionais que operam em Espanha tentaram acabar com esta tradição, no entanto, esbarraram com os sindicatos e com o entendimento dos tribunais espanhóis que decidem tendencialmente a favor dos trabalhadores. Esta semana uma sentença do Supremo Tribunal de Justiça Espanhol considera o cabaz de Natal como direito adquirido desde que fique comprovado que era prática da empresa nos 3 anos anteriores. (Pormenores neste artigo do El Pais.)

A tradição de oferecer produtos alimentares aos trabalhadores deriva da tradição romana de, em Dezembro, os Senhores oferecerem aos seus trabalhadores um cesto de vime com produtos alimentares para que estes celebrassem com as suas famílias a Saturnália (festa em honra do Deus Saturno). Durante a Saturnália, amigos e familiares visitavam-se e trocavam presentes. O cristianismo absorveu a tradição.


Acho que todos nos lembramos de quando os nossos familiares chegavam a casa com um Bolo-rei ou uma garrafa de espumante oferecida pela entidade patronal ou pelo proprietário do mini-mercado a que se mantivera fiel todo o ano.
Agora, sorrimos quando os nossos patrões nos dão uma bugiganga qualquer com o logótipo da empresa e das grandes superfícies comerciais a única coisa que podemos esperar é um estranho aumento de preços.

 

ps Já recebi de tudo um pouco dos meus patrões: relógios, mochilas, lanternas, guarda-chuvas, cadernos, canecas... mas nunca me deram nada comestível. E, não  sei se por medo de que o facto de nos presentearem com bugigangas se tornasse num direito adquirido ou se por outra razão qualquer no Natal passado a minha empresa deu-me uma mão cheia de nada.

 

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Fazer o amor

ó menina, 17.12.19

Estava a ler um texto do Mário de Carvalho e não pude deixar de pensar nesta época tão especial, a semana depois do jantar de Natal da empresa.

São dias especiais, estes que se seguem ao jantar de Natal. É certo que para alguns só servem para exaltar as qualidades do Uber eats, para outros felizmente não ficaram recordações mas para alguns sortudos (ou não) ficou o amor e é vê-los a trocar olhinhos enquanto trocam mensagens, a fazer pausas sincronizadas, a encontrarem-se furtivamente nos recantos mais inóspitos da empresa, a lamentar traições e relações acabadas ou simplesmente a lamentar o inusitado affaire.

As histórias que se podiam contar... podiam e podem. Vá! Contem-me tudo! Como é que estão a sobreviver a esta época pós bifinhos com cogumelos  nesses, escritórios, hospitais, escolas, call centers ... por onde habitam? Hum?

Aqui fica o excerto do conto do Mário de Carvalho. 

"O edifício estava vazio, zumbiam as moscas, o pessoal almoçava, e os dois amantes iniciavam o seu ritual, rápido, às vezes tumultuoso, sempre com o travo picante da transgressão e risco de escandaloso processo disciplinar, no caso de serem reduzidos a auto os rumores que já circulavam em todo o departamento."

Vaudeville, Mário de Carvalho, in Contos Vagabundos, pág. 30, Porto Editora, 2014

 

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ps. Aproveitem as férias para ler!

 

Notas e recadinhos

ó menina, 14.12.19

 

Ontem, passei por um senhor que carregava uma varinha mágica. Não, não era um electrodoméstico para esconder, da esposa, na garagem até à troca de presentes na hora da consoada. O senhor levava uma varinha de mágico devidamente embrulhada em plástico transparente e cuidadosamente encostada ao peito para a proteger da chuva.
Depois vi um miúdo de galochas e gabardina amarela. Pisava livremente as poças num quadro que pensava só existir no cinema.
Vi muito mais coisas que me apeteceu registar e registei.

A câmara do telemóvel tem-se ligado sozinha. Se o meu telemóvel quer saber mais sobre mim ou por onde ando poupo-lhe esse trabalho e a partir de agora registo tudo o que considere digno de nota.

 

Disponham sempre!

 

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