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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ai sim? Trabalhar em Call Centers deixou de ser esgotante?

ó menina, 13.08.19

Investigadores da Universidade de Psicologia de Lisboa analisaram o sector dos call centers e chegaram à conclusão de que:

'Trabalhar em Call Centers já não é esgotante'

'Estar oito horas por dia ao telefone com clientes já não é uma atividade stressante e temporária só para ganhar dinheiro. A falta de alternativa no mercado laboral leva cada vez mais portugueses a elegerem o atendimento telefónico como profissão e de longo prazo. Sem outra opção, estimam o trabalho que têm, remunerado com incentivos, e os níveis de bem-estar são agora mais elevados.'

Como é que a falta de alternativa leva alguém a eleger (no sentido de escolha) o que quer que seja?

Mas quem sou eu para questionar um estudo realizado com douta sabedoria por quem reage com entusiasmo e avança como contributo positivo o facto de 'As pessoas em Lisboa e no Sul esperarem ter outro emprego e os seus níveis de stresse serem mais elevados do que quem está no Norte ou no interior do país, onde há menos oportunidades'

Vivemos num país onde a centralização é uma realidade que contribui até para a frustração ou perda de expectativas pessoais na maioria dos portugueses, mas tudo bem porque isso é bom para o sector dos call centers que assim podem aproveitar as baixas expectativas dos não alfacinhas para eclodir como uma praga de cogumelos pelos cantinhos mais recônditos de Portugal Continental e ilhas.

A notícia é avançada pelo expresso que como não tive outra alternativa de profissão e apesar de ter adoptado a que tenho, por falta de opção à demasiado tempo, não tenho dinheiro para assinar. O que, estranhamente, eleva os meus níveis de bem-estar. O expresso já não é o que era no início do Século, se andasse a gastar dinheiro com ele sentir-me-ia muito mais frustrada. O que me leva a pensar que dependendo da amostra e das questões o resultado pode ser indutor de uma maior satisfação desde que salvaguardando uma margem enorme de erro.

Nas empresas de trabalho temporário onde a maioria dos trabalhares está, por falta de opção, numa situação precária à tanto tempo que o seu emprego devia ter as regalias de quem está com um vínculo de longa duração, ou seja, nas empresas que não permitem aos trabalhadores do sector ter uma carreira são realizados vários inquéritos do género, periódicos, de suposto valor científico e com resultados defendidos por investigadores por elas contratados que, apesar do suposto anonimato do processo, levam a reuniões de equipa e represálias a comunicadores que não voltam a cair no erro e à segunda respondem como se espera de funcionários que não têm outra opção no mercado laboral.

Para salientarem com entusiasmo a falsidade de que a média do salário bruto é 850 euros mais prémio, (mesmo que fosse por trabalho qualificado não é bom é uma roubalheira,) o inquérito realizado a 4 mil trabalhadores num sector que emprega cerca de 90 mil tem certamente predominância de inquiridos de certa área geográfica, sector e empresa que seriam importantes referir quando, apesar de uma amostra tão pequena se defende tão entusiasticamente que um sector 'deixou de ser esgotante'  mesmo que 'Muito stressados e nada entusiasmados encontremos 18%(dos inquiridos)'

Muito triste este tipo de engodo em defesa de um sector que beneficiou da displicência das várias bancadas parlamentares ao longo desta legislatura mas cujos trabalhadores tiveram o mérito de fazer visível e assunto relevante em pré-campanha, (ver recentes declarações de Jerónimo de Sousa na Madeira). É tão triste que parece encomendado por medo do que a próxima legislatura possa trazer em matéria laboral ao sector.

 

ps Se calhar não sou só eu que preciso debruçar-me sobre o trabalho do Christophe Dejours e do Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção que lidera este verão. Há por aí muito investigador que devia fazer o mesmo antes de publicar este tipo de estudo e o deixar veiculado a uma conclusão tão parca de título de jornal.
'Trabalhar em Call Centers já não é esgotante' pffff ... não tenho paciência para isto. Aliás, ando com tão pouca paciência que estava a pensar falar com um psicólogo mas se é para isto que servem ...

 

 

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