Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Há quem prefira 'bondage'

ó menina, 23.02.15

Trabalhar ao fim-de-semana, numa linha de apoio ao cliente, significa que temos que atender muitos casais recentemente formados com parceiros desejosos de mostrar ao outro como são valentes e sabem travar uma batalha. Homens de voz fininha que recorrem a um telefone para falar grosso e mulheres de voz ainda mais fina que recorrem a um telefone para tentar falar ainda mais fino, como se fosse possível.

Esperneiam, gritam, insultam e distorcem o que lhes dizemos para parecer que lhes estamos a dar razão quando nos limitamos a dizer 'lamento mas não verificamos nada incorrecto com a sua factura' 'lamento, não nos é possível aceder ao seu pedido' 'lamento'...

Quando colocamos o mute, para bocejar, beber água, gerir os nossos tempos e objectivos (nós já sabemos a resposta e eles também!) dizem ao outro... 'Isto tem que ser assim! com estes gajos, isto tem que ser assim' 'vais ver! vão ter que fazer o que eu quero!' e nós sentimos a tensão entre eles os sorrisos o orgulho.

Saem da linha com um redondo não, nós sabemos como arredondar um não quando a brincadeira já passou das marcas ou quando começa a interferir com o nosso dia de trabalho ou dignidade. Mas apesar do não aquele momento em que mostraram ao outro como são bons a humilhar alguém faz-lhes bem ao ego e adensa a relação.

Eu seria incapaz de gostar de alguém que destrata outro de forma gratuita enquanto esse outro executa o seu trabalho. Nunca o faria para conquistar alguém mas, eu também não sou adepta de bondage.

 

 Obrigada, pelo seu contacto!