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Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Lucros dos Call Centers Triplicam mas Operadores ganham menos

ó menina, 20.01.19

 

 

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Pois é, o lucro dos Call Centers triplicou e os únicos a ganhar com isso foram as empresas de trabalho temporário que de contrato em contrato vão mantendo os trabalhadores no mesmo posto de trabalho a receber o mesmo de sempre, ou seja, o mínimo. Estas e os seus maiores clientes que as contratam através de intrincados concursos e contratos cujos 'cadernos de encargos' gostava de ver tornados públicos, principalmente os dos operadores de TV e telecomunicações essas empresas que se dizem com responsabilidade social mas não querem saber como são tratadas as pessoas que são a 'voz mais visível da marca. Onde anda a Ana Leal da TVI quando mais preciso dela? Hum?

 

 

A petição do Sindicato dos trabalhadores dos brracões (ie call centers) que deu entrada na Assembleia da República em 2016 vai ser discutida dia 24 de Janeiro de 2019, deu tempo aos exploradores de Call Centers para triplicarem os lucros e dará 3 minutos a cada grupo parlamentar para discutir a regulamentação da profissão como de desgaste rápido, à semelhança de outros países, limitar ao máximo de 75% o trabalho em linha e aumentar o tempo de intervalo para 6 minutos por cada hora de trabalho (antes de dizerem que é muito, lembro que nunca trabalhei com mais do que 3 minutos por hora controlados por um cronómetro que o próprio trabalhador põe a correr antes de se levantar do lugar ou seja se for 2 vezes por dia à casa de banho gasta em média, depois de atravessar os barracões cada vez maiores, 12 minutos e fica a  ponderar se deve ou não lavar as mãos pois só lhe restam outros 12 para beber, comer qualquer coisa ou acenar com a cabeça, de longe, a um colega que vai perceber pelo gesto se está a comentar o jogo do Sporting ou a perguntar onde é que comprou aquela camisola.)

 

Três minutos é muito pouco tempo no entanto é o reconhecimento de que o sector deve ser discutido.

Espero que todos aproveitem o momento para conhecer melhor este mundo, antes de atirarem para o mesmo saco e começarem a discorrer idiotices de como os Call Centers são uma profissão de passagem para onde vão as pessoas com menos formação impingir brindes a donas de casa. 

 

Tenho mais formação do que alguns deputados. Sou mais velha do que alguns. Tenho neste momento colegas com filhos na Universidade, outros que são avós e estão na profissão desde o século passado.

Trabalhei sempre em Call Centers que respondiam a necessidades dos clientes. Trabalhei sempre com a pressão da gravação de todas as chamadas usadas para calcular prémios, através de grelhas de pontuação com regras demasiado gerais e  cada vez mais omissas aplicadas por auditores que têm, também eles, objectivos. Tive sempre que corresponder a um 'tempo médio de atendimento' que foi diminuindo no sector o que aumenta o número de tarefas a realizar por minuto enquanto se mantém a comunicação com o cliente. 

Este mundo é um mundo onde as decisões têm que ser tomadas em segundos e delas pode depender o trabalho do cliente, o quotidiano (serviços de comunicação, água, electricidade, compras, distribuição, assistência técnica, seguros, viagens, serviços clínicos), o dinheiro do cliente ( aplicações, serviços bancários, bloqueio de cartões furtados), o tratamento dos seus dados pessoais ou assistência em caso de urgência (a saúde 24 e o INEM são call centers).

Faz sentido que hoje em dia parte do trabalho esteja suportado em plataformas digitais e formas de comunicação mais acessíveis e rápidas. Não faz sentido que quem executa esse tipo de trabalho seja diminuído porque o seu trabalho tem entre ele e o cliente um meio de comunicação e esteja sujeito ao aproveitamento do sector que estando pouco regulado aumenta a pressão, o trabalho e a exigência mas paga o mínimo.

 

Ó menina, então tu estás quase um ano sem aparecer e quando apareces é para escrever um texto deste tamanho que mais parece uma notícia do Público? - Perguntam vocês.

Pois - respondo eu, a encolher os ombros. Que quereis? Eu entusiasmo-me com estas coisas... Obrigada, pelo vosso contacto.

2 comentários

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    ó menina 29.01.2019

    Não vejo porque em pleno século XXI não podem ir para aos contact centers os melhores e os que prosperam nas suas profissões sem que isso seja para eles um motivo de orgulho. O natural é que os engenheiros informáticos estejam disponíveis num contact center a apoiar e controlar remotamente os mais intrincados sistemas, um gestor atenda à distância a sua carteira de clientes e um médico passe a fazer a maior parte do atendimento de forma remota.
    Não vejo porque consideram as pessoas que só lá está quem não tem outra oportunidade quando as pessoas estão lá, como em qualquer outra profissão, para construir novas e mais portunidades no seu caminho passem elas ou não pelo call center, o importante é que passem com dignidade.
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