Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Sondagens e Votos Generosos

ó menina, 02.10.15

A propósito da chamada que atendi, de uma empresa de sondagens, pensei: como é bom que algumas pessoas não tenham telefone fixo! E lembrei-me da Inesinha, a velhinha que morava em frente à casa da minha mãe.

Eu nunca tinha atendido uma empresa de sondagens. Não fazia ideia de que era uma experiência tão surreal.

Atendi um telefone que não era meu e do outro lado um senhor que não quis saber quem era, se era maior de idade, de nacionalidade portuguesa ou qualquer outra característica começou a falar de forma tão apressada que nem percebi de onde ligava. Percebi do que se tratava porque distingui a palavra sondagem e respondi tão apressadamente como ele. 

Se para mim foi uma experiência surreal, imagino como seria para a Inesinha ou alguém como ela. 

A Inesinha não tinha telefone fixo. Quando queria telefonar ia a nossa casa, pedia licença, usava o telefone e mesmo com a recusa da minha mãe em aceitar algo em troca deixava uma moeda de 20 escudos na mesinha onde estava o aparelho. Eu e os meus irmãos apreciávamos o gesto, a moeda acabava trocada por um cartuxo de rebuçados Catraios na mercearia mais próxima. 

A Inesinha era generosa e analfabeta. Quando tinha um número diferente pedia que lho marcássemos no telefone  e também ia lá a casa para que lhe fizéssemos as cruzes no totoloto. A propósito de cruzes a minha mãe questionou-a como tinha feito nas eleições, como é que tinha escolhido e ela respondeu : 

- Eu? Fiz uma cruz em todos. Coitadinhos! Eles todos pedem e se pedem é porque precisam. Então, votei em todos!

Ora, imaginem que a Inesinha tinha telefone e respondia todos numa sondagem. Baralhava aquilo tudo! 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

 

 

 

 

 

 

8 comentários

Comentar post