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Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Call para as paredes!

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

28
Jun16

Do baú


Nos anos 30, Portugal já tinha telefones automáticos que dispensavam a intervenção da menina telefonista, poucos mas tinha.

Quem os pretendesse tinha que os solicitar, por telefone ou por postal, à Anglo-Portuguese Telephone Co. Ltd.

Os utilizadores eram alertados para seguir todas as regras, à risca, no próprio equipamento.

Não eram necessários pagamentos antecipados e mensalmente um cobrador ia a casa do cliente cobrar a conta. Ah, bons velhos tempos, esses em que não haviam call centers para esclarecer facturas e receber reclamações, o cobrador ia lá a casa e resolvia-se tudo.

 

telefone automático.jpg

telefone regras.jpg

in Revista Ilustração, No. 118, Novembro 1930

 

Obrigada, pelo seu contacto.

21
Jun16

Dramas modernos


 

- Ó menina, estou sem televisão e sem internet. Já participei a avaria há uma hora mas, ainda não fizeram nada.

Isto não pode ser assim! Eu tenho o meu filho de férias e não posso ficar assim muito tempo. Como é que eu vou conseguir entreter uma criança de 8 anos sem televisão e sem internet? Hum?

O que é que uma criança de 8 anos faz sem televisão e internet? Diga-me!

 

- Assim de repente...huuum...já sei! Brinca?

 

Obrigada, pelo seu contacto!

20
Jun16

Sarcasmo e estupidez não são a mesma coisa


 

"Uma funcionária de um call center foi despedida em nome da igualdade por se encontrar grávida. É verdade!"

 

Esta frase pode ser lida numa recente crónica do Jovem Conservador de Direita, no jornal i, juntamente com outros habituais impropérios.

Infelizmente há quem partilhe da sua opinião, só porque é estúpido. Por isso, existem grávidas despedidas. 

 

Obrigada,  pelo seu contacto!

 

Jornal i, aqui

 

 

17
Jun16

Está difícil


Conciliar trabalho e ensino superior é cada vez mais complicado.

As entidades patronais não premeiam a aposta dos colaboradores na formação, não a vêem como necessária para ter pessoas mais preparadas no futuro porque os colaboradores são descartáveis e provisórios. Portanto, a fim de manter o posto de trabalho que, apesar de permeável, lhes permite pagar as contas (só pagar as contas) os trabalhadores de call center canalizam a sua atenção para os objectivos, mensais, semanais, diários e sempre em mutação da empresa em lugar de a canalizarem para as frequências, exames, cadeiras... E mesmo que quisessem, quem pode com horários por turnos que só se conhecem na véspera de mais uma semana começar?

Os cursos arrastam-se à medida que a vida avança e as responsabilidades se alteram.

Um desempregado com formação abaixo da frequência universitária é muitas vezes bandeira política dos partidos que exibem a sua aposta na requalificação. Um jovem adulto com um emprego abaixo da sua formação não é sequer considerado.

Há programas para o regresso ao ensino superior, dirão. Sim há mas, acham que estes jovens que pagaram e pagam os seus impostos, formaram família, compraram ou 'montaram' o seu lar, foram empreendedores e apostaram em empresas que podem não ter dado certo, conseguem sobreviver com pouco mais de 100 euros mês?

Podem pedir um empréstimo, dirão outros. Podem mas, não lho darão porque já têm os seus compromissos e pedem-lhes garantias que se eles ou a família possuíssem não estariam a recorrer a tal mecanismo. Já experimentei!

Está difícil. Acreditem. Acreditem e não me venham vender grandes vitórias de quando trabalharam umas horas nas décadas de 80/90, quando a necessidade de qualificados era tanta que qualquer um a frequentar o ensino superior era professor, funcionário público ou tinha oportunidades de emprego quase certo, de remuneração boa para a época e de onde ainda não devem ter saído. A legislação era a favor de quem estudava, existiam mais opções de cursos em pós-laboral e dois ordenados não tinham que ser, à cabeça, colocados de parte para pagar propinas. Acredito que existiram excepções a esta generalização mas, é difícil mesmo e eu estou farta que me sejam passados atestados de incompetência e burrice por quem não tem a grandeza de saber calçar os sapatos do outro.

Está difícil, era só isso que queria dizer. Está dito.

 

17
Jun16

Marketing


Há dias, quando regressava a casa, fui abordada por um senhor, um jovem, que me pediu uma 'pequena moeda'. Disse que estava com fome e que lhe faltava um euro para completar o valor de uma refeição na cantina social. Era tarde, eu estava sozinha, o rosto não me era desconhecido e a situação não me inspirou confiança pelo que lamentei não poder ajudar e segui sem abrir ou largar a mala. 

Uma das razões para a recusa foi o facto de ter visto, ao longe, o homem separar-se de um companheiro que seguiu na direcção contrária abordando outros com o mesmo objectivo, uma pequena moeda.

O rosto era-me familiar, dos grupos de toxicodependentes com que me cruzo quando regresso a casa, não tenho queixas deles, nunca me tinham abordado.Não fosse o adiantado da hora, impróprio ao funcionamento de qualquer cantina, e eu teria cedido. Dava-lhe a moeda sem hesitar apesar de o ter reconhecido.

O homem estava bem arranjado, notava-se que tinha esmero, vaidade. Abordou-me com um Boa Noite, efusivo e com um sorriso simpático apesar de desdentado. Contou-me o que pretendia, desvalorizou o pedido que me fazia ao classificar a moeda como 'pequena', usou o argumento da fome transferindo para mim a responsabilidade pela consequência da recusa... Fez-me pensar que gente como ele está desaproveitada. Os call centers de vendas deviam aproveitar o seu Know how , afinal são gente treinada a vender o que de mais difícil há para vender. Eles vendem-se a si mesmos. Não é fácil! Eu teria cedido, apesar de o conhecer, porque é muito bom no que faz e como faz.

As linhas de vendas deviam ter um programa de requalificação destes homens, tiravam-nos das ruas e aproveitavam as suas técnicas de marketing.  

 

Obrigada, pelo seu contacto.

16
Jun16

Panóptico


Sinto-me, frequentemente, dentro de um Panóptico.

O panóptico é um edifício concebido no final do Séc. XVIII pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham. A construção circular permitia a um único observador controlar, a partir de uma posição central, todos os que se encontrassem sujeitos a este mecanismo de vigilância. 

Inicialmente concebido para o sistema prisional tornou-se frequente, no século XIX, nos hospitais psiquiátricos, escolas ou fábricas.

Sinto-me muitas vezes a habitar um círculo onde o controlo e vigilância constantes continuam a ser exercidos, embora de forma mais dissimulada. Sinto-o em contexto laboral, apesar de o barracão não ser um círculo mas, também no dia-a-dia.

A nossa vida tem muito pouco de privado.

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

13
Jun16

Socializar por aí


 

- Como é que disse que se chamava?

- O meu nome é Ó Menina.

- Pois, isso. É que estou aqui no facebook e assim aproveito para a procurar.

 

- !?!?

 

Se calhar,  passo a partilhar só gatinhos... Será que pesquisa todos os funcionários de serviços com que se cruza?

 

- Um café, por favor! Gosto muito da sua foto de perfil!

- Pode atestar, por favor! Então, diga-me, o seu estado é triste porquê?

 

O facto de vivermos numa aldeia global não faz de nós vizinhos, de portas abertas, sempre disponíveis para emprestar mais um raminho de salsa. Há pessoas que não entendem.

 

Obrigada, pelo seu contacto.

Por favor não me pesquisem no facebook.

 

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