Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Vida Invisível

ó menina, 24.06.20

'Vida Invisível' foi o último filme que vi no cinema antes do confinamento por Covid-19. Um enorme esforço da cinematografia brasileira para se fazer sobressair na Sétima Arte, tem participação portuguesa e venceu o prémio 'Um Certo Olhar' em Cannes mas não alcançou muito sucesso junto do público.
Achei-o pouco mais que uma telenovela curta num ecrã gigante, apesar do tremendo esforço em responder a todos os clichês que um sucesso exige, muito denunciado. Mas, tem um excelente título, não posso negar.

Do confinamento, da reorganização horária trazida pelo teletrabalho, ficou-me o hábito recuperado à infância de terminar o dia com uma telenovela brasileira. 'Amor de Mãe' uma telenovela que me deixa a sensação de estar a assistir a um filme longo em ecrã pequeno. Uma excelente lição de construção da estrutura temporal narrativa para muitos autores e aspirantes a autores que acham necessário explicar até o que acontece enquanto se dorme.

Uma das protagonistas da novela é interpretada por Regina Casé que é também a actriz principal do filme 'Que horas ela volta?', um filme brasileiro de 2015 vencedor do prémio do público no Festival de Berlim. Menos dado ao clichê, muito bom e que recomendo principalmente nesta altura em que percebemos que o vírus até pode ser democrático mas a sua disseminação não é e encontra na classe trabalhadora território privilegiado.

No momento em que a vida habitualmente invisível da classe trabalhadora pobre passou para a ribalta e as questões relacionadas com discriminação também sugiro-o como mote para uma reflexão, cada vez mais necessária, sobre que sociedade queremos/escolhemos viver e como participamos nela.

Façam-se visíveis!

Musiquinha de Espera #

ó menina, 31.05.20

Ó Menina, afinal és uma romântica! Exclamam vocês depois de verem o vídeo que se segue.

Sim, é verdade, no peito da Ó Menina também bate um coração e eu era ainda mais menina quando estes dois, que envelheceram tão bem, protagonizaram o ' Before Sunrise', primeiro filme da trilogia dirigida por Richard Linklater, por isso este é um filme que me traz boas recordações. Para além disso, este vídeo é pertinente e foi montado com muito bom gosto pelo Rob Stone.

Tem como banda sonora o 'Come here' da Kath Bloom que também fez parte da banda sonora do filme original e como bem sabeis este coraçãozinho não resiste a um bom folk. 

Amaciai-vos! 

 

 

 

Acham que tenho um problema?

ó menina, 18.05.20

Sejam sinceros!

Num país que enfrenta uma pandemia, em Estado de Calamidade, onde apesar da mortalidade, de um Serviço Nacional de Saúde periclitante, de taxas de desemprego avassaladoras... a maior parte da população escolhe como desígnio nacional 'a praia' e até o Presidente da República conta como arranjou um esquema para continuar a ir à praia, num barquinho a remos, ter uma praia à porta de casa nunca meter lá os pés e estar-se borrifando para as regras com que as praias vão abrir é ter um problema qualquer, certo?


Digam-me! Acham que tenho um problema?

 

Sempre que penso no Sr. Presidente Marcelo num barquinho a remos, lembro-me disto:

Les Vacances de monsieur Hulot (1954) by Jacques Tati

Cada um luta com as armas que tem

ó menina, 26.04.20


O pós 25 de Abril foi marcado por um período de incerteza.
Em 1975, o povo, (palavra gasta na época), vivia insatisfeito por algo que não se cumprira e em permanente inquietação pela possibilidade de uma intervenção internacional cuja face mais visível eram os navios da Nato atracados no Tejo nomeadamente um Porta-aviões americano. 

Perante a emeaça da intervenção estrangeira, João Cesar Monteiro pegou na camera e foi sentir o pulso das ruas onde os militares americanos passeavam enquanto os locais lidavam com a possível intervenção identificada com 'Nosferato' o vampiro de Murnau de cujo filme João César Monteiro utiliza alguns momentos.

Deixou-nos um documento importante para a compreensão do momento.

Que farei Eu com esta espada' by João César Monteiro

A Outra Margem

ó menina, 17.04.20

A Outra Margem, é talvez a indicação geográfica mais metafórica que existe. Aquela em que os poetas mais se podem aventurar, mesmo que o 'assunto' seja a morte e é também um filme do Luís Filipe Rocha.

Não sou dada a elogios fúnebres online de figuras conhecidas, quando os que partem partilharam generosamente connosco o que de melhor tinham para dar merecem ser recordados pelo seu trabalho.

Ao receber a notícia do desaparecimento do actor Filipe Duarte (46) lembrei-me logo deste filme.

Deixo-o como sugestão para os que estão com um pouco mais de tempo disponível.

É uma mensagem muito simples de tolerância e uma excelente reflexão acerca de como queremos viver lá fora, quando isto passar.

 

 

Adormecida

ó menina, 10.02.20

A cerimónia dos Óscares 2020 foi um mau espectáculo. Não valia a pena perder o sono, hoje de manhã as notícias partilhavam os vencedores. Deixei-me dormir ou fui adormecida.

Para além de ser um espectáculo pobre, foi demasiado politizado pelos organizadores que esperavam encontrar na cerimónia alguma redenção para as críticas que receberam pela falta de diversidade nas nomeações.
Mulheres, negros, gordinhos ou pessoas que de certa forma fogem ao tipo de beleza de Hollywood, um cadeirante num coro de gospel, um portador de Síndrome de Down a ser tratado como um deficiente pelo seu companheiro de palco... a organização tentou tudo para mostrar na apresentação o que não fez nas nomeações. Todos os espaços eram poucos e tivemos que levar com a bizarria de levar com pessoas que foram lá só para apresentar pessoas que iam apresentar coisas. O tempo que nos tinham poupado...
A diversidade linguística habitualmente negada pela academia, este ano, fez-se notar.
A delegação Coreana teve direito a intérprete e a canção do filme de animação Frozen foi interpretada em várias línguas com a participação das actrizes que fizeram a dobragem em vários países, não teve representantes da língua portuguesa. (Bom momento para pensarmos para que serve o Instituto Camões e porque é que quem nos representa insiste em falar Inglês, fora de países de língua Inglesa ou na União Europa da qual o Reino Unido se fez excluir).

Quando à distribuição dos prémios não há como dizer que não mereciam porque foram todos muito bons mas a atribuição das estatuetas teve momentos que demasiado politizados.

A melhor curta-metragem de animação 'Hair Love' aborda um assunto pertinente mas não era a melhor.

O documentário 'American Factory' produzido por Obama, o único Presidente americano a cumprir dois mandatos em guerra e cujo capitalismo supostamente inclusivo também nos levou ao Trump (os russos não fizeram tudo sozinhos) é um claro acto político. Não há como negar que aborda questões pertinentes mas não chegou lá pela qualidade.

O problema, quando tudo obedece ao politicamente correcto, é que até o vencedor, que só conheci esta manhã e que era o meu preferido disse-o dois ou três posts abaixo onde também adivinhei alguns dos vencedores, até o vencedor parece ter chegado lá pelos motivos errados.

82380518_1535519393268990_470364494472675328_o-5e2dacc70a19a__880.jpg

poster by Nuno Sarnadas

Agora vou acabar esta longa segunda-feira a ver os vestidos das senhoras que também sou Menina de certas vaidades...

And the Oscar goes to...

ó menina, 08.02.20

"The Neighbor's  Window"  by Marshall Curry nomeado para melhor curta-metragem de live action.

Simples e inteligente. Adorei!

'Learn to skateboard in a Warzone' (if you're a girl) by Carol Dysinger não tenho um link para uma versão completa deste mas vejam o 2° lugar mais abaixo é o meu preferido e ficam bem servidos)

 

'In The Absence'  by Seung-jun Yi. Nomeado para melhor curta-metragem de documentário. Retrata o desastre do Sewol na Coreia do Sul, que vitimou mais de 300 pessoas, em 2014.

Cru, as comunicações dos responsáveis pelo resgate tardio assim como das mensagens das vítimas sobre as imagens do ferry a afundar deixam-nos impotentes mesmo sabendo que não podemos fazer nada.

Nas curtas de animação a Regina Pessoa esteve quase lá com o seu 'Tio Tomás, a contabilidade dos dias', merecia. Podem acompanhar o seu trabalho e ver alguns dos seus filmes no NFB - National Film Board of Canada  onde também podem explorar milhares de filmes disponíveis para visualização nomeadamente filmes premiados com Óscares. Para esta categoria escolheria Dcera by Daria kashcheevaMemorable by Bruno Callet et Jean François Le Corre, e o meu preferido Sister by Siqi Song.

Dos filmes que concorrem às categorias principais o 'Parasitas' é o meu preferido, em princípio só vence na categoria de estrangeiro. Gostei muito do '1917' e o Sam Mendes é o melhor realizador, o melhor escrito é o Marriage Story by Noah Baumbach, embora a originalidade do Parasitas lhe garanta o Óscar, assim como na montagem ou edição.

 

O resto é espectáculo! Aproveitem o fim-de-semana! Eu vou, finalmente, ver o Jojo Rabbit.

 

Musiquinha de espera #paradiascinzentos

ó menina, 25.01.20

 

Nos dias cinzentos, em cujas nuvens carreguem qualquer crise ou dúvida existencial, devemos ver um filme.

Sim. Passear na natureza, ver os passarinhos e tal também é muito bonito mas se Deus que criou a natureza também criou o Homem e o Homem criou o cinema para quê desperdiçar. Certo? Certo!

Sugiro «This Must be the Place» do Paolo Sorrentino. 

E, depois de umas belas bofetadas que nos atiram para longe de qualquer apatia e nos despertam empatia por tudo, por todos, devemos aproveitar a maravilhosa banda sonora que para além das peças líricas dos 'The Pieces of Shit', banda especificamente produzida para o filme por David Byrne e 'Bonnie Prince Billy' também recorda o clássico dos Talking Heads 'This Must be the Place', que empresta o título ao filme, com interpretação do próprio David Byrne que envelheceu muito bem e continua a ser uma voz muito lúcida.