Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

Ó Menina

Notas de uma menina que, por acaso, trabalha num call center

das Prioridades

ó menina, 07.12.15

- ó menina, a minha factura é muito alta! Eu tenho que alimentar os meus filhos! Como é que querem que eu o faça? Querem que vá roubar? Arranje-me uma maneira qualquer de baixar a factura! Eu não posso pagar isto!

 

- Senhora cliente verifico que tem activados os canais premium 'BTV' e 'Sport TV', se os cancelar a sua factura diminui cerca de 36 euros. São muito importantes para si, estes canais? 

 

- O quê? Se são essenciais? Claro que são! Como é que, depois, o meu esposo via o futebol?

Questiona a cliente, esposa e mãe por um qualquer erro da natureza, indignada com a proposta. 

 

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

Mordo a língua

ó menina, 26.10.15

Mordo muitas vezes a língua para não dizer o que me apetece.

Ontem mordi a língua.

 

(Domingo, 23h43)

 

-Ó menina, diz aqui que já gastei o plafon de minutos mas, não é possível. Eu não falo assim tanto, ao telemóvel...

 

Parece pretensioso deitar-me a adivinhar, pela voz e maneira de falar, o estrato social da pessoa mas, a experiência autoriza-me. A cliente era de classe média. Educada, discurso elaborado, destreza informática... Era de classe média.

Consumos avaliados, cálculos feitos, instruções para consulta e confirmação dos mesmos e a cliente insistia.

- Mas, eu sou muito controlada. Não fui eu que fiz as chamadas, é um erro certamente.

Em fundo, o barulho da televisão e as vozes dos familiares.

Pai e filho faziam os trabalhos de casa. A informação era sempre a mesma. Mas, a cliente insistia na questão e entre verificações e validações gritava impacientemente:

- tens 5 pratos com 6 laranjas...

O esposo, pai pedia-lhe calma.

- Trata disso que eu trato disto.

 

Eu, mordia a língua.

 

- Se tivesse dedicado mais tempo ao seu filho e menos ao telemóvel, nada disto acontecia... - pensava, não me cabia dizê-lo.

 

Hoje o miúdo, certamente, chegou à escola cheio de sono e com a lição mal estudada mas, a mãe está satisfeita porque lá se arranjou maneira de continuar a telefonar até ao final do mês.

 

Obrigada, pelo seu contacto!

 

 

Se pagarem bem até sou capaz de os parir por vós

ó menina, 17.09.15

- Ó menina, a minha factura está muito alta. Estão aqui consumos associados ao telemóvel da minha filha e vocês dizem que mandam alertas quando está a acabar o plafon mas, ela diz que não recebe.

- Qual é o número de telemóvel da sua filha, por favor?

(...)

 

A ó menina faz a sua magia e começa a confrontar a cliente, com um tom de voz seguro

 

- Foi enviada mensagem de alerta de que estava a terminar plafon de serviço de dados no dia x há hora y, mensagem recebida pelo número da sua filha sem erro. Acerca do mesmo plafon foi enviada mensagem de fim com alerta para cobrança no caso de continuar a usar no dia X há hora y, recebida sem erro. Para plafon de sms...

- Ó menina mas, ela diz que não recebe. 

- Lamento, os consumos foram realizados e nós alertamos para o fim do plafon na mensalidade.

- Ó menina mas, ela diz que não recebeu e a factura está tão alta...

- Se quiser barramos os consumos adicionais desse número

- Não, eu quero dar liberdade à miúda e confio nela. A outra menina com quem falei o mês passado já tinha proposto isso mas, não quero.

- Seria uma forma de gerir os consumos...

- Mas, eu não quero. Ó menina! A menina não consegue desta vez fazer um descontinho? Tirar-me essas chamadas e consumos de internet? Fazer, assim, vistas grossas? - Diz a cliente, mãe por um qualquer acidente do destino.

 

Indignada, com o facto de lhe estar a ser pedido que coloque o seu emprego em risco e credite comunicações só porque uma mãe se demite do seu papel e não quer chatear a filha, a ó menina demora algum tempo a responder

 

- Sim! Ó menina, está a ouvir? Pode?

- Não lamento.

- Não! Isso deixa-me muito triste. Sabe qual é a minha vontade?

- Falar com a sua filha?

- Não a minha vontade é deixar esta operadora que não ajuda nada os clientes...

 

A chamada termina com um 'Obrigada, pelo seu contacto' que custou muito a engolir à ó menina.

 

Quando alguém se propõe conscientemente a pai/mãe, a Segurança Social nega-lho porque não tem duas casas-de-banho. Uma funcional para um agregado de 3 não chega são necessárias duas. Gostava de saber o que a Segurança Social escreveria num relatório acerca destes pais, com os quais me cruzo em linha diariamente e que estão endividados, a reclamar para tentar um descontinho ou a mendigar um 'plafonamento' enquanto defendem os meninos que querem adultos com liberdade e para os quais estão a comprar iphones a prestações porque como vão para o liceu dizem que é necessário...

A minha mãe trataria das minhas ´borradas´ com um par de estalos, nunca tentaria maquilhá-las através de terceiros.